Uma visão integrada do Agronegócio brasileiro: insumos, sucessão e inteligência artificial como fatores estratégicos para a longevidade dos negócios

Na 10ª Edição do Dialoga do Agronegócio do IBGC, tivemos como convidados Ricardo Tortorella, Katerine Rios e Maurício Lemos que nos auxiliaram a aprofundar na reflexão da importância dos órgãos de governança para pensar estrategicamente os temas dos insumos, sucessão e inteligência artificial.

(Descrição da imagem: A imagem mostra a mão de uma pessoa segurando uma pequena planta em uma lavoura ao pôr do sol. Em primeiro plano, uma mão aberta, com a palma para cima, segura delicadamente um pequeno broto verde com duas folhas. Acima da mão, flutua uma interface digital transparente e luminosa, de cor azulada. A interface exibe vários ícones relacionados à agricultura: um sol, uma gota d'água, uma pá, um ícone de micróbios, dados de nutrientes do solo. Linhas digitais conectam essa interface a um grande sistema de irrigação por pivô central, que está ao fundo, borrifando água sobre a plantação. O fundo da imagem é uma vasta plantação verde, com o sol se pondo no horizonte, criando uma luz dourada e quente que ilumina toda a cena. Fim da descrição).

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

Todos eles são especialistas nessas áreas e trouxeram informações relevantes que nos auxiliaram a refletir profundamente sobre os temas.

A importância estratégica dos adubos no agronegócio diante do cenário geopolítico atual

Esse foi um debate acalorado sobre como os fertilizantes ganharam uma nova dimensão. Não se trata mais de um tema técnico, mas sim de um pilar de segurança alimentar, competitividade e soberania — especialmente para o Brasil, que alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.

Cerca de 40% a 60% da produtividade das principais culturas brasileiras depende diretamente da adubação. Sem adubo, não há escala, qualidade ou previsibilidade.

A oferta global está concentrada em poucos países — muitos deles em regiões tensas como a Rússia e Bielorrússia que fornecem potássio e nitrogenados. Os conflitos, sanções e restrições logísticas transformaram o fertilizante em ativo político.

O Brasil é potência agrícola, mas dependente, pois importamos cerca de 85% dos adubos que utilizamos. Essa dependência nos expõe diretamente a flutuações cambiais, instabilidades internacionais, atrasos logísticos e volatilidade dos custos de produção.

Além disso, os fertilizantes percorrem longas rotas marítimas e chegam a poucos portos brasileiros, sendo que, qualquer atraso — externo ou interno — compromete janelas críticas de plantio. É ainda importante observar que o custo de transporte é bastante elevado pois os produtos transitam em sua maioria pelas rodovias.

Assim, no agronegócio brasileiro, fertilizantes deixaram de ser um componente operacional e se tornaram uma decisão estratégica de alta relevância para produtividade, exportações e estabilidade econômica, sendo o papel dos órgãos de governança de extrema relevância para a observação estratégica do tema.

Sucessão no Agronegócio: quando a continuidade depende da governança

A sucessão no agronegócio é um dos temas mais sensíveis e estratégicos das famílias empresárias rurais. A terra deixou de ser apenas patrimônio: tornou-se empresa, negócio, investimento, risco e legado.

E é por isso que a sucessão precisa ser tratada em duas dimensões claras — propriedade e gestão — tendo a governança como eixo de equilíbrio entre elas.

A sucessão patrimonial define quem será dono da terra, das quotas e dos ativos.

É onde surgem temas como: fragmentação da área ou manutenção da unidade produtiva, doações em vida com usufruto, holdings e acordos de sócios, cláusulas de proteção patrimonial e regras de entrada e saída dos herdeiros.

A propriedade exige estrutura jurídica, segurança e planejamento. Sem isso, o risco é claro: a terra se divide, a família se divide e o negócio enfraquece. A governança, o pensamento estratégico e a definição dos papéis se torna essencial para garantir a longevidade dos negócios.

A gestão é outra frente — totalmente diferente da propriedade, vez que ser herdeiro não significa estar preparado para gerir. O agronegócio hoje demanda visão financeira, gestão de risco, tecnologia aplicada, planejamento tributário, leitura de mercado e profissionalização.

Quem vai assumir as decisões necessita de preparo técnico, emocional e estratégico.

As boas práticas de governança evitam confusão, assimetria de expectativas e conflitos. Organizar a sucessão implica em separar papéis de dono, gestor e familiares, definir regras claras de decisão, profissionalizar funções, criar ritos de comunicação e transparência, estabelecer conselhos (de administração, consultivo e de família) ou órgãos de decisão e garantir meritocracia, continuidade e harmonia.

Governança é o que transforma sucessão de risco em estratégia. Sem governança, a sucessão vira improviso. Famílias que colocam governança no centro da sucessão constroem continuidade. As que evitam o tema constroem riscos.

Inteligência Artificial no Agronegócio: inovação estratégica com governança para evitar desperdícios

A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser tendência para se tornar realidade no agronegócio. Do solo ao satélite, da colheitadeira ao balanço financeiro, da previsão climática ao manejo de insumos, a IA já influencia decisões, reduz custos, melhora eficiência e amplia produtividade.

Mas existe um ponto crucial: a IA não é barata, não é simples e não é neutra.

Sem governança, a adoção tecnológica pode se transformar em desperdício de tempo, dinheiro e capital humano.

É por isso que o avanço da IA no agro precisa caminhar lado a lado com os órgãos de governança corporativa — conselhos de administração, comitês técnicos, conselho consultivo, governança familiar e gestão executiva profissionalizada.

O uso da IA no agronegócio já é visível em várias frentes: previsão climática avançada e tomada de decisão agronômica, detecção precoce de pragas e doenças por imagens e algoritmos, otimização de uso de fertilizantes e defensivos, monitoramento de lavouras via drones e satélites, gestão de máquinas autônomas, modelos preditivos de preço, risco e logística, controle de custos, margem e fluxo de caixa e agricultura de precisão em escalas cada vez maiores.

A IA entrega eficiência. Porém, ela exige infraestrutura, integração de dados, qualificação de pessoas, alinhamento estratégico e governança, pois sem esses elementos, a tecnologia vira promessa não cumprida.

O erro mais comum é investir sem governança, sem pensamento estratégico, ou seja, comprar tecnologia antes de fazer o diagnóstico adequado, podendo ocorrer desperdícios de recursos.  A adoção de IA exige decisões estratégicas de longo prazo e isso só é possível quando os órgãos de governança cumprem seu papel.

Antes de adquirir qualquer tecnologia, os órgãos de decisão deveriam definir diretrizes tecnológicas e prioridades estratégicas, avaliar ROI, riscos e impacto na competitividade, garantir que a IA esteja alinhada ao plano de longo prazo e criar ritos de monitoramento dos investimentos.

A governança organiza o processo para que a IA seja investimento, não gasto.

Quando os órgãos de governança estão atuantes, eles não perguntam “quanto custa?”, eles perguntam “Qual problema essa tecnologia resolve?”. Se não há dor concreta, não há motivo para investir.

Outra pergunta essencial é “Temos dados confiáveis?”. Sem dados, a IA não funciona — ela apenas adivinha e todo o investimento em recursos financeiros de tempo e de pessoas poderá ser em vão.

Decisões claras, criteriosas e fundamentadas são a base para o sucesso do investimento em Inteligência Artificial no agronegócio. Nada de soluções dispersas, tudo deve ser orquestrado.

A Inteligência Artificial tem poder transformador no agronegócio, mas só gera valor quando existe governança capaz de orientar, priorizar e monitorar os investimentos. O campo não precisa apenas de tecnologia, precisa de liderança, método e visão de futuro.

foi instrutora da 10ª edição do IBGC Dialoga no tema Agronegócio, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2025.

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