“O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.”
— Guimarães Rosa (1956)

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Um Novo Paradigma Estratégico
Navegar em incerteza não é mais exceção — é a nova norma. A resposta estratégica exige método, coragem, agilidade e liderança adaptativa. O ambiente de negócios contemporâneo é marcado por “choques sistêmicos” e “volatilidade endêmica”: uma sucessão quase contínua de eventos inesperados que se sobrepõem e amplificam riscos. Para pequenas e médias empresas, este cenário representa um desafio ainda maior, pois a capacidade de absorver choques é menor, e cada decisão errada pode comprometer significativamente margens, reputação e até a sobrevivência do negócio.
As fontes de incerteza se entrelaçam em várias dimensões:
- Geopolítica — guerras regionais, reconfiguração de blocos e protecionismo;
- Econômica — inflação, desequilíbrios fiscais, aumento do custo de capital e volatilidade cambial;
- Tecnológica — avanço da inteligência artificial, sistemas autônomos, obsolescência acelerada e novos modelos de negócio;
- Social e regulatória — mudanças nos valores e comportamento dos consumidores, legislações climáticas, ESG e riscos climáticos.
Neste contexto, a lógica tradicional de planejamento — construída para ambientes estáveis — perde efetividade. Nos conselhos, torna-se essencial transitar de uma lógica reativa para um modelo de “liderança adaptativa”, combinando vigilância contextual, velocidade de decisão e construção de resiliência organizacional, apoiando-se em ferramentas e processos que ajudem a qualificar decisões mesmo diante de grande incerteza.
Esse cenário dinâmico exige revisões constantes de modelos fundamentais: retorno financeiro, capacidade de investimento, lucratividade, eficiência operacional, estrutura de capital e reputação organizacional. Por isso, mais do que planos estáticos, o que se requer são novas formas de pensar, decidir e agir. Empresas resilientes costumam adotar se conhece como “loop de adaptação estratégica”: ciclos curtos de aprendizado, cenarização contínua, experimentação e realocação dinâmica de recursos. A disciplina desses ciclos é que garante que a empresa não fique paralisada pelo medo do erro e seja capaz de avançar mesmo em meio a turbulências.
Ferramentas-Chave para Gestão de Incertezas
A Matriz de Incertezas é um instrumento simples, porém poderoso, para operacionalizar o processo de gestão de incertezas. Ela consiste em listar todos os eventos ou fatores que podem impactar a empresa — desde questões macroeconômicas até riscos operacionais internos — e avaliá-los segundo três critérios: grau de urgência (alto, médio ou baixo), impacto potencial (financeiro, reputacional ou operacional) e ação recomendada (monitorar, mitigar ou agir imediatamente). O resultado é um quadro visual em que cada incerteza é posicionada de acordo com esses eixos, permitindo que a liderança veja de forma clara quais riscos precisam de resposta imediata e quais podem ser apenas acompanhados.
Exemplo de Matriz de Incertezas

Fonte: COURTNEY, KIRKLAND e VIGUERIE, 1997.
Por exemplo: uma alteração iminente na taxa de juros pode ser classificada como alta urgência e alto impacto financeiro, exigindo ação imediata — como renegociação de dívidas. Já uma tendência de mudança no comportamento do consumidor pode ter baixo impacto no curto prazo e ser apenas monitorada até que ganhe relevância.
Recomenda-se revisar periodicamente nas reuniões do conselho, atualizando-a sempre que houver um gatilho crítico, como mudanças na legislação, rupturas de fornecimento ou variações abruptas de câmbio. Com o tempo, a matriz se torna um radar estratégico da organização.
Outra ferramenta particularmente útil é o Cone de Futuros, proposto por Joseph Voros (2003), que ajuda a organizar os possíveis desdobramentos em quatro dimensões: futuros possíveis, plausíveis, prováveis e preferidos. A aplicação prática começa com a definição do horizonte temporal (3, 5 ou 10 anos) e a identificação dos fatores de incerteza mais relevantes. Em seguida, constrói-se um pequeno conjunto de cenários integrados, cada um com gatilhos e planos de resposta. A atualização periódica garante que a empresa reavalie sinais de mudança e ajuste sua estratégia continuamente.
Exemplo de Cone de Futuros

Fonte: Voros, 2003.
O uso disciplinado dessas ferramentas transforma ambiguidade em vantagem competitiva. Empresas que estruturam sistemas de monitoramento estratégico, combinando inteligência interna com fontes externas (think tanks, associações setoriais, especialistas de mercado) conseguem antecipar tendências e preparar respostas antes da concorrência. A inteligência artificial vem potencializando esse processo, permitindo simulações preditivas, integração de grandes volumes de dados e identificação de padrões que poderiam passar despercebidos.
Casos Ilustrativos
Em entrevistas com empresas de diferentes portes e setores, observamos estratégias como mitigação de riscos, verticalização produtiva e diversificação de portfólio e base geográfica — medidas que reduzem riscos geopolíticos e climáticos e criam diferenciais competitivos. Uma delas enfrenta riscos geopolíticos, econômicos e tecnológicos, com produtos sintéticos ameaçando sua base biológica.
Para mitigar esses riscos, esta empresa tem adotado o planejamento de cenários, considerando horizontes de tempo de curto, médio e longo prazo, e aplicando:
- Portfólio de iniciativas estruturado em três frentes:
- No regret moves – ações eficazes em qualquer cenário, voltadas à produtividade e eficiência;
- Options & Hedging – estratégias incrementais, avaliadas por risco e retorno;
- Big Bets – dois ou três grandes projetos alinhados ao cenário dominante;
- Orçamento anual com revisões trimestrais colaborativas, focadas na evolução dos cenários e no ajuste de ações e investimentos prioritários;
- Gestão de projetos com equipes multifuncionais, comunicação contínua e metas coletivas que fundamentam a remuneração variável individual;
- Promoção de uma cultura inquieta e propositiva, receptiva a sugestões, críticas construtivas e adaptações estruturais. Isso se dá por práticas como job rotation e pela busca contínua por inovação, com ênfase em modelos de inovação aberta;
- Governança dinâmica e eficaz, sustentada por comunicação transparente e alinhamento frequente com o conselho, garantindo decisões estratégicas bem fundamentadas e coesas.
Papel da Liderança
Em tempos de incerteza, conselhos deixam de ser guardiões da conformidade para se tornarem arquitetos estratégicos e curadores do propósito organizacional. Devem estimular ciclos curtos de revisão estratégica, integrar risco, inovação e sustentabilidade como vetores de decisão e cultivar diversidade cognitiva. Conselhos eficazes criam fóruns de cenarização, simulam rupturas e incorporam inteligência artificial aos processos de análise e compliance.
A cultura organizacional é decisiva. Estratégia só se sustenta com líderes que promovem resiliência, delegam decisões e comunicam com clareza e propósito. O Paradoxo de Stockdale é útil: enfrentar a realidade tal como é, sem perder a esperança no desfecho positivo. Empresas com esse mindset atravessam crises com mais agilidade e saem fortalecidas.
Transformar incertezas em oportunidades exige revisar cadeias de suprimento, incorporar novas tecnologias, reforçar a liquidez e buscar nichos emergentes e parcerias estratégicas. A estratégia deixa de ser um mapa estático e se torna uma bússola dinâmica. No “novo normal” — essa transição constante — florescem oportunidades transformadoras para as empresas que tem coragem de explorá-las.
Parafraseando Guimarães Rosa (1956):
O mercado esquenta, depois esfria;
o caixa aperta, depois respira;
o time sossega, depois se desafia.
O que os negócios querem da gente é coragem.
Referências bibliográficas
- ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.
- Cones of Futures – VOROS, Joseph. A generic foresight process framework. Foresight, v. 5, n. 3, p. 10-21, 2003.
- Stockdale Paradox – COLLINS, Jim. Good to great: why some companies make the leap… and others don’t. New York: HarperBusiness, 2001
- Uncertainty Matrix – COURTNEY, Hugh; KIRKLAND, Jane; VIGUERIE, Patrick. Strategy under uncertainty. Harvard Business Review, v. 75, n. 6, p. 67-79, 1997.
Rossana Sadir, Claudia Pagnano, Felipe Kury, Marcio Waldman, Ricardo Oberlander e Alberto Pedrosa
são membros da Comissão de Estratégia e Inovação. Este artigo foi escrito no âmbito do projeto #452 – Estratégia em Tempos de Incertezas Geopolíticas Econômicas, da mesma comissão.