Transição Energética: Uma complexa teia de conflitos de interesse? 

Uma característica contemporânea é a de carimbar temas com o selo da “complexidade”.  Tudo tende a se transformar em algo complexo, uma vez que os debates ocorrem em um ambiente marcado por polarização, sectarismo e radicalização alimentadas por dissonâncias cognitivas. 
Descrição da imagem oculta: A imagem mostra um ambiente moderno de laboratório ou sala de pesquisa com iluminação artificial. No centro, um homem de meia-idade, branco, com óculos, cabelos curtos e roupa social, veste um crachá e segura uma caneta enquanto apresenta um grande painel solar apoiado sobre uma mesa. Ao redor da mesa, há três outras pessoas. À esquerda, um jovem de cabelos loiros e óculos segura um laptop aberto; no canto esquerdo, uma mulher com cabelo cacheado observa a apresentação com a mão no queixo e, no canto direito da imagem, outra pessoa, parcialmente visível, também participa da reunião. No fundo, há um grande monitor exibindo gráficos e textos sobre energia renovável, com palavras como “Green Energy” e imagens de turbinas eólicas e painéis solares. Fim da descrição

Fonte: banco de imagens Adobe Stock

As mudanças climáticas e a “Transição Energética” não fogem a essa regra consuetudinária. Diante do desafio de que a sobrevivência da espécie humana requer atitudes universalistas e não sectárias, isso é um grande problema. As redes sociais potencializam seus efeitos, mas a causa raiz pode ser mais profunda. E suas consequências mais graves. 

Resenhar o que é publicado diariamente na imprensa séria e responsável sobre Transição Energética é um trabalho hercúleo, sobretudo se a intenção é a de identificar e classificar o que chama aos olhos facilmente: a complexa teia de conflitos de interesse, um tema basilar da doutrina da Governança Corporativa

O grau dos conflitos de interesses revela-se elevado, contaminando o debate público sobre qualquer tema de interesse coletivo. Como, por exemplo, uma transição energética efetivamente estratégica, elemento central de qualquer esperança de mitigação dos efeitos climáticos no longo prazo. No curto prazo, as estórias são ainda mais difusas e contraditórias. 

Uma abordagem, sem dúvida heterodoxa, é dar um passo atrás: ao invés de se concentrar no mosaico do cotidiano, buscar um ângulo diferente, conceituando melhor o “pensamento e a motivação” dos atores opostos neste conflito de interesse. Uma abordagem “fora-da-caixa” da sabedoria convencional dominante atualmente. 

Ao preparar a ementa final do quarto encontro da série IBGC Dialoga Transição Energética e Governança Corporativa em junho passado, me ocorreu uma releitura do clássico de Raymundo Faoro “Os Donos do Poder”, em particular seu Capítulo Final, “A Viagem Redonda: Do Patrimonialismo ao Estamento”.  

A distinção entre a definição de “burocracia”1 e de “estamento burocrático”2 explorada por Faoro é uma chave que permite uma melhor compreensão das causas-raiz dos conflitos de interesse na Transição Energética, para caracterizar os dois principais polos ativos nesse conflito: o ativismo climático (“burocracia”) e as lideranças empresariais (“estamento burocrático”).  

A “viagem redonda” pelas contradições e visões concorrentes e não convergentes da Transição Energética leva a crer estarmos, figurativamente, diante de três movimentos de um concerto clássico para piano e orquestra. Com uma peculiaridade: a orquestra e o(s) solo(s) de piano tocam simultaneamente os três movimentos, com partituras diferentes. E o(s) solo(s) pianístico(s) são repercutidos na selva das mídias sociais em micro postagens, cuja superficialidade agrava a desconexão das partes com o todo. 

  • O primeiro movimento é rápido, na forma-sonata (“quanto custa e quem vai pagar?”). 
  • O segundo movimento, lento, é um intermezzo marcado pela improvisação (“quem há de vigiar os próprios vigilantes?”). 
  • E o terceiro movimento, rápido, é um rondó, galvanizado pelos conflitantes interesses que marcam o “longo adeus” da dominância do petróleo e seus derivados sobre o modo de vida da humanidade em busca da descarbonização das emissões atmosféricas e seus efeitos sobre o clima. Ou, recorrendo ao conceito de modo de produção, pela necessidade de se repensar as relações técnicas das forças produtivas e as relações sociais que regem a vida civilizada. 

Neste “concerto cacofônico”, de um lado há a partitura do “ativismo climático”, ostensivo, vibrante e multifacetado, que age e se sente como parte de um “aparelho neutro” (a exemplo da “burocracia” definida por Faoro) orientado por convicções ideológicas e científicas dos impactos climáticos sobre a sobrevivência da espécie humana. 

Em campo oposto, o “ativismo empresarial”, uma espécie de “estamento burocrático”, menos ostensivo e mais coeso, movimenta-se por interesses sustentados por uma versão própria de “patrimonialismo”, na forma de organizações empresariais, que tanto representam a “propriedade” (no jargão da governança) quanto segmentos do mercado financeiro e de capitais, apoiados por corporativismos técnicos, gerenciais e diretivos

Este “estamento burocrático” exerce, em prol da perpetuação do status-quo, poder real e influente, sustentado igualmente por convicções ideológicas e científicas, inclusive nos meios acadêmicos, na relativização dos impactos decorrentes dos efeitos das emissões de gases de estufa e suas consequências. 

Nesta cacofonia, o primeiro movimento é “abafado” pelos dois outros movimentos.  

Sobretudo pelo terceiro, dado o “pianíssimo” com que é tocado o segundo movimento, uma vez que a governança da “transição energética”, no mundo real, carece de “maestria”, dado que os “maestros” nos Estados-Nacionais e nos organismos multilaterais o rege de acordo com suas próprias partituras. 

Políticos e diplomatas são reféns ou do imediatismo de suas agendas políticas, sociais e econômicas (tanto em regimes democráticos quanto autoritários) ou da agenda de longo prazo de suas iniciativas (organismos multilaterais), tornando pouco eficazes as “acabativas” em face às evidências de que aquilo que foi denominado como “verdades inconvenientes”, no início do século 21, chegou mais cedo do que era esperado.  

Se são consequências que foram causadas pelo “antropoceno” e pela revolução industrial ou se são manifestações dos ciclos de Gaia, uma simples varredura pelo noticiário sério e responsável nestes seis primeiros meses de 2024 colhe evidências de “há algo diferente no ar e não são aviões de carreira”

É difícil imaginar rumos para a Transição Energética, em especial no âmbito da missão e responsabilidades dos Conselhos de Administração de empresas energéticas e não energéticas, que não envolva o reconhecimento de que “o coração da matéria” situa-se exatamente no fato de que estamos diante de um imenso e paralisante conflito de interesses. 

Se este conflito de interesses for cotejado unicamente pela posição moral elevada (“moral high ground”) ou por uma posição de justiça própria (“self-righteousness”), movidas por idealismo, a consequência previsível será a perpetuação do status-quo, por melhores e mais justos, eticamente, que sejam os fundamentos que justifiquem ações proativas na mitigação dos impactos ambientais sobre a espécie humana. 

É preciso reconhecer, para então entender “o que fazer”, que o “estamento burocrático”, menos ostensivo, mais coeso, sustentado por uma versão própria de “patrimonialismo”, constrói uma narrativa eficaz, do ponto de vista prático, extremamente alinhada com o objetivo de postergar o futuro. 

Se a orquestra não tem partitura, se cada naipe ou solista toca uma música diferente, o resultado é a cacofonia do nosso caos contemporâneo. No qual, os sobreviventes empresariais continuarão a sobreviver… Deturpando a primeira frase do romance Anna Karenina, a riqueza é totalmente parecida entre si. A pobreza, é infeliz cada qual a sua maneira. E a “Guerra Fria 4.0”, que pauta a agenda geopolítica do Século 21, é apenas a dose extra de pimenta na caldeirada em que a Transição Energética é o prato principal. 

Portanto, na raiz, no “coração da matéria”, do conflito de interesses que paralisará ou mobilizará a transição energética, está a pergunta ainda sem resposta: “quanto custará e quem irá pagar pela Transição Energética?” 

Se é verdade que qualquer solução, técnica ou econômica, envolve uma mudança no modo de produção capitalista, é preciso reconhecer que a destruição criativa não impacta igualmente todas as atividades econômicas e/ou empresariais.  

Atividades menos intensivas em capital e/ou de depreciação acelerada de seus ativos imobilizados, são felizes igualmente quando são capazes de reinventarem seus modelos de negócio e de geração de valor. Se não são capazes de se reinventarem, simplesmente desaparecem, pois seus produtos e serviços deixam de ser percebidos como de valor agregado pelos stakeholders (criando uma desconexão com seu propósito, a razão de ser e existir do negócio), tornando sua infelicidade igualmente assemelhada, não deixando saudade. 

Atividades intensivas em capital e, portanto, de amortização e recuperabilidade de investimentos de longo prazo, ou seja, toda a infraestrutura energética, é uma outra estória, nesse caso, justificadamente mais “complexa”. 

Parafraseando Antonio Gramsci, é a velha ordem resistindo e a nova ordem lutando para se impor. Na transição, todo tipo de patologia emerge

foi instrutor da 7ª edição do IBGC Dialoga no tema Transição Energética, que ocorreu no período de março a junho de 2024. 

(1) “Burocracia”: “um aparelhamento neutro, em qualquer tipo de Estado

(2) “Estamento Burocrático”patrimonialista na sua natureza e nos seus objetivos permanentes, que “comanda o ramo civil e militar da administração, dessa base, com aparelhamento próprio” e “invade e dirige a esfera econômica, política e financeira, ultrapassando a regulamentação formal da ideologia liberal, alcançando desde as prescrições financeiras e monetárias até a gestão direta das empresas, passando pelo regime das concessões estatais e das ordenações sobre o trabalho” (pp. 738-739).

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