Desafios Atuais da Governança em Saúde: Lições do IBGC Dialoga 

Conselhos de administração necessitam, mais do que nunca, definir a estratégia de longo prazo da organização promovendo a inovação, o avanço tecnológico e, sobretudo no setor de saúde, a sustentabilidade do negócio e do próprio ecossistema.

descrição da imagem: A imagem mostra um grupo de quatro pessoas reunidas em uma sala de reunião moderna. No centro da cena, uma mulher de pele clara e cabelos presos, vestindo um blazer preto e uma blusa com laço, gesticula com a mão enquanto fala. À sua frente, uma mulher de cabelos castanhos soltos veste um casaco lilás e está sentada, ouvindo a conversa. Um homem de cabelos escuros e curtos, vestindo uma camisa azul-clara, segura um tablet e olha para a mulher que está falando. Outro homem, com cabelos médios e ondulados, veste uma camisa bege e segura uma caneta, parecendo atento à discussão. A mesa onde o grupo está reunido contém xícaras, potes plásticos com comida e um objeto trançado feito de material natural. Ao fundo, há uma tela grande exibindo uma imagem de objetos coloridos dispostos sobre uma superfície branca, incluindo embalagens, garrafas e utensílios diversos. A sala possui uma estante metálica com caixas e objetos organizados, além de uma janela com persianas, que permite a entrada de luz natural. Fim da descrição

Fonte: banco de imagens Adobe Stock

O setor de saúde apresenta oportunidades e desafios únicos, especialmente em um ambiente com alta demanda, novas tecnologias, desafios de financiamento, e complexidade operacional. Com base nas discussões com associados e apresentações de convidados do IBGC Dialoga em Saúde, em sua 7ª edição, esta série aborda discussões conduzidas em temas como mecanismos de competitividade no mercado, estratégia digital, segurança cibernética e a educação continuada e carreira do conselheiro. 

À medida que o ambiente de saúde suplementar brasileiro se torna mais desafiador, com pressões financeiras e operacionais crescentes, trouxemos luz para uma discussão estratégica cuja importância é frequentemente subestimada pelos atores da cadeia de prestação de serviços em saúde: o estabelecimento de parcerias estratégicas entre instituições concorrentes. Nossa hipótese era de que a colaboração entre instituições poderia estar no portfólio de soluções de hospitais independentes para viabilizar a sustentabilidade e o crescimento dessas instituições.

De fato, nas discussões promovidas no Dialoga, algumas dificuldades enfrentadas pelas instituições de saúde foram levantadas, tais como a escassez de recursos, a necessidade de modernização tecnológica, e a manutenção de um alto padrão de atendimento com custos crescentes. Dentro deste contexto, aumentou-se a sensibilidade do grupo para as oportunidades de colaboração. Ficou claro que, em vez de competir por recursos limitados, a formação de alianças estratégicas poderia permitir economias de escala, compartilhar melhores práticas e promover uma gestão mais eficiente em cada instituição. 

Durante os trabalhos em grupo, os associados discutiram diversos modelos de gestão para a parceria, desde compras conjuntas até a unificação de centros de serviços compartilhados (CSC), em uma lógica norteada por atividades mais operacionais e menos estratégicas para cada instituição. As propostas variaram de contratação de serviços de terceiros até a criação de novas unidades de negócio com uma estrutura de governança comum para a estrutura consorciada. Este último ponto foi sublinhado pelo grupo e as discussões abrangeram a criação de uma joint venture (JV) ou até mesmo uma nova associação de hospitais filantrópicos.

A composição do comando executivo também foi debatida, com a possibilidade de se escolher um CEO independente para liderar a parceria, ou uma composição mista entre os hospitais. O novo modelo de gestão foi direcionado para promoção da competitividade dos membros do consórcio, mas sempre buscando a mitigação da complexidade e riscos associados, como riscos concorrenciais. 

Foi interessante observar, justamente porque este texto foi escrito algumas semanas após o primeiro encontro desta versão do Dialoga Saúde, que o desenrolar dos acontecimentos futuros no mercado demonstrou que os hospitais filantrópicos independentes realmente criaram a Associação dos Hospitais Privados Filantrópicos (AHFIP)1, 2, “com o objetivo de fortalecer e expandir seus impactos… para manter a sustentabilidade de seus associados e do sistema de saúde.” Essa notícia revela ser possível a colaboração entre hospitais filantrópicos como recurso para enfrentar as adversidades do setor, promovendo a competitividade e o crescimento das instituições envolvidas. Destaca-se aqui o papel dos conselheiros e dos colegiados de governança dessas instituições que, particularmente em momentos de crise, devem ter a independência intelectual e coragem para propor mudanças de estratégia em suas organizações que, outrora, não pertenceriam ao repertório do setor de saúde. 

Já se tornou senso comum entre executivos e conselheiros de administração a criticidade de temas como o uso de dados, transformação digital e inteligência artificial nas organizações, não apenas em seus processos internos, mas no seu relacionamento com a cadeira de suprimentos, reguladores e, particularmente, com clientes. Em organizações de serviços de saúde, em especial, considera-se elevado potencial na ampliação e aceleração de ações de prevenção, diagnóstico e tratamento, com aumento da eficácia e ganhos de eficiência. 

As discussões em grupo aprofundaram os desafios que têm retardado a adoção das novas tecnologias neste setor e ressaltaram o papel dos agentes de governança o nessa transformação. Entre os desafios apontados pelos associados estava a cultura organizacional, que na saúde tende a revelar baixa tolerância a riscos e resiste a mudanças. Reside aqui uma das principais oportunidades, portanto de atuação do Conselho de Administração, que no contexto de mercado atual deve apoiar os executivos e monitorar essa mudança de cultura.

Também foi elencada entre os desafios para a estratégia digital das empresas de saúde as limitações da capacidade de investimento das organizações. Finalmente, entendeu-se ainda que as próprias empresas do setor têm um papel relevante na interlocução com órgãos regulatórios, de forma a compatibilizar o conjunto de normas à realidade do mundo digital. 

A discussão em grupos também contou com casos reais no Brasil, exemplificando como conselheiros foram impulsionadores de evolução significativa na estratégia digital e aplicação de inteligência artificial aos negócios e concluiu com um ponto que tem sido cada vez mais relevante hoje que é a capacidade de os agentes de governança continuarem sempre atualizando-se, incluindo a participação em processos de educação continuada. 

Ironicamente, quanto maior a incursão de uma organização nos processos digitais, mais potencialmente exposta ela está em um novo tipo de crime que tem se tornado uma das mais poderosas e lucrativas indústrias: os ataques cibernéticos. Os especialistas da área comumente afirmam que esse tipo de crime certamente acometerá todas as empresas que devem, portanto, estar preparadas, Além da gravidade inerente de eventual interrupção da operação de uma empresa de saude – o que, por si só, pode representar um fato gravíssimo e comprometer a vida de pacientes – o risco de exposição dos dados individuais de saúde se reveste de dramaticidade adicional.

É por essa razão que o Conselho de Administração deve se envolver diretamente com essas questões e acompanhar, no âmbito da governança, as providências dos executivos no estabelecimento de indicadores de monitoramento do ambiente, estabelecimento de barreiras de proteção, testes de recuperação dos sistemas e bases de dados, e criação de uma cultura de segurança de dados, com medidas de educação preventiva para os funcionários da organização.

Durante as discussões ficou também clara a importância de um plano de resposta já estruturado, cuja execução seja de amplo conhecimento dos executivos envolvidos com a resposta ao incidente, que não se restrinja à área de tecnologia, e que envolva, entre outros elementos, o plano de comunicação com os porta-vozes da organização, as consultorias especializadas pertinentes, o suporte jurídico, e todas as contingências de suporte à operação que precisarão ser acionadas, para elencar alguns dos pontos críticos. 

No último encontro do IBGC Dialoga Saúde do primeiro semestre de 2024 a discussão foi organizada em torno da experiência e formação de um conselheiro de administração de mercado que tem atuado em organizações financeiras e de saúde. A sessão foi conduzida na forma de plenária para participação de todos e aprofundamento de temas concernentes aos principais desafios na carreira de um conselheiro de administração.

Discutiu-se a importância do conselheiro no acompanhamento e direcionamento de temas como a criação de valor, estrutura de capital da organização, incluindo o endividamento das empresas no Brasil em um cenário atual de juros muito elevados. Um elemento chave mencionado na responsabilidade do conselho para a criação de valor foi relacionado à aprovação de projetos cujo retorno estivesse acima do custo de capital da empresa. 

Também se discutiu o ingresso de um novo membro em um colegiado de governança e uma das sugestões mencionadas foi que o candidato a conselheiro entrevistasse acionistas e conselheiros para explorar valores da empresa e, com isso, entender o potencial de agregação para aquele grupo, eventuais riscos envolvidos e identificação com os valores percebidos.

Referências: 

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