O ano de 2024 certamente ficará marcado na história de todo o Brasil e do mundo pela tragédia das enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul. Consequência e causa da crise climática que vivenciamos, a catástrofe a que foi submetido o povo gaúcho no primeiro semestre evidencia o quanto é chegada a hora de debatermos qual o papel da governança e do ESG neste momento histórico.

Fonte: banco de imagens Adobe Stock

 

Se tomarmos como definição, explícita no Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que a “governança corporativa é um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral”, fica evidente o quanto a sustentabilidade se apresenta como primordial para a pauta das organizações.

A governança tem para si a responsabilidade de buscar o equilíbrio, contribuindo positivamente tanto para a sociedade como para o meio ambiente. Não à toa, a sustentabilidade foi incorporada no Código como princípio da governança, ao lado da integridade, equidade, responsabilização e transparência.

Porém, se é por meio do princípio da sustentabilidade que consideramos os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, natural, reputacional) no curto, médio e longo prazos, e se nas nossas organizações nos dispomos a implantar a governança, cabe um grande questionamento: por que ainda há agentes como sócios, diretores, entre outros, que relutam em debater a questão ambiental, desconsiderando que as organizações atuam em uma relação de interdependência com os ecossistemas social, econômico e ambiental?

Para tentar responder a esses questionamentos, cabe uma retrospectiva histórica, que nos traz mais perguntas.

Se os impactos das mudanças no clima estão em discussão desde o século 19, quando os primeiros cientistas identificaram que o homem tem a capacidade de modificar o meio ambiente, e as consequências são evidentes e desastrosas a ponto de desmantelar todo o nosso estado, por que ainda é tão difícil discutir o tema com a seriedade que ele merece?

Por que, se a economia de diferentes setores afetados direta e indiretamente pelas enchentes ainda vai levar um período que não sabemos precisar para se recuperar, a crise climática não é pauta recorrente nos nossos conselhos de administração e consultivos?

Em busca de respostas, destacamos o ano de 1972, quando, em Estocolmo, acontece o primeiro grande evento sobre as mudanças climáticas no mundo, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Desde essa década, a questão do clima tem sido tratada como uma matéria política, dividida entre direita e esquerda. Para agravar, quando o assunto ESG (Environmental, Social e Governance) começou a ser abordado, nos anos 2000, em paralelo à necessidade de debater os negócios sobre as perspectivas econômica, ambiental e social, as discussões ambientais apontavam para o viés do decrescimento, indicando como solução frear o capitalismo e o crescimento. A ativista Greta Thunberg ainda está aí para comprovar a força deste ponto de vista.

Como dificilmente temos empreendedores que defendam a estagnação econômica, o que era para ser discutido à luz da ciência se tornou uma questão de ecologia política. E o povo gaúcho, com seu jeito próprio de cultivar as tradições, parece ter uma dificuldade ainda maior em debater o tema sem se encaminhar para a polarização ideológica.

A mudança climática e o ESG como um todo, no entanto, têm evoluído para outros pensamentos: o reformista, com foco no desenvolvimento sustentável, por muitos acusado de tangenciar os problemas, desconsiderando a causa raiz; e, o mais atual, o ecomodernismo, que tem na economia circular e na inovação intensiva, sem culpa ou punição, estratégias reais de solução de problemas. É a inovabilidade (equilíbrio entre inovação e sustentabilidade), defendida globalmente por Bill Gates.

Negar a ciência, os problemas climáticos, o que está escrachado nas nossas vidas, por uma questão política, não ajuda nossas organizações. O negacionismo, ao não reconhecer o que está posto, impede que se tenha estratégias e planos de ação concretos para combater um problema com o qual vamos ter que conviver com cada vez mais frequência e intensidade. Deixar de discutir, seja na esfera pública ou privada, o desenvolvimento de um plano de resiliência climática, que avalie com profundidade os riscos e impactos para as empresas e para o estado sob o jugo de que o investimento é demasiado, chega a ser uma heresia.

Convém perceber que, em menos de um ano, tivemos onze eventos de clima, sendo quatro grandes acontecimentos no Rio Grande do Sul, entre ciclone e enchentes. O que considerávamos como eventos esporádicos, se apresenta cada vez mais frequente. Então, como pode um conselho de administração se furtar de colocar à mesa questões como:

    • A localização do empreendimento leva em consideração a sensibilidade ambiental a que está submetida?

    • Analisa os passivos com relação ao uso da água e do solo?

    • Considera o aumento dos rios e a cota de cheias?

São indagações nada triviais. Pelo contrário, requerem a atuação de especialistas nas áreas e lideranças comprometidas, para que a tomada de decisão seja feita à luz dos fatos. Longe de serem “firulas”, os dados são condição para que se traga a discussão para o cerne dos negócios.

Está mais do que na hora de nós, brasileiros, e especialmente os gaúchos, discutirmos o clima considerando a ciência e não a política. Trazer as questões da sustentabilidade para a estratégia dos negócios é papel da governança corporativa, impondo-se cada vez mais como um dever dos nossos conselhos e comitês. Ao estabelecer na prática uma agenda ambiental, física, subsidiada pela alta direção e com visão de longo prazo, temos grandes chances de conseguir gerar valor compartilhado entre os sócios e as demais partes interessadas.

Essa relação entre os stakeholders, o meio ambiente e a sociedade em geral, urge ser pautada pela ética, fundamento da governança e base das melhores práticas para alcançar os objetivos econômicos, sociais e ambientais par e par com o propósito de gerar o bem comum. Sermos claros, coerentes, direcionando e conectando negócios, pessoas, causas, estratégias e o ecossistema, nos parece a única saída viável para a perenidade.

O extremismo político embaça nossa visão e desfoca o olhar sobre o que realmente é importante. Se o que não nos mata nos fortalece, é ao analisar o cenário desta tragédia e os riscos a que nossos negócios estão expostos, que também temos uma grande oportunidade. Se as enchentes trouxeram problemas que ainda não haviam sido considerados, também é ela que nos abre janelas para enxergar o tema de forma estratégica, criando possibilidades de resiliência climática, nos preparando para as situações que vêm pela frente e criando soluções que possam ser uma força frente ao que estamos vivenciando.

Não podemos sair, como povo e como negócios, de um evento traumático como o que estamos passando, do mesmo jeito que ingressamos. Que possamos, sim, termos novas descobertas, mas baseadas em olhares mais límpidos e em um novo pensar, consciente do impacto das mudanças climáticas, ultrapassando as crenças limitantes e as diferenças ideológicas que venhamos a ter.

é membro da Comissão de Sustentabilidade do IBGC e integrante da coordenação do Capítulo Rio Grande do Sul. Este artigo foi escrito no âmbito do projeto #416 – “A crise climática no Rio Grande do Sul e o papel dos conselhos” da Comissão de Sustentabilidade.

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