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Porém ter na mesma quinzena de novembro a apuração da eleição americana de 2024, a COP-29 e o Fórum Anual do G-20, é mais que uma simples coincidência.
Até porque destes eventos, em maior ou menor grau, decorrerão consequências em torno da real questão que impacta o andamento da agenda das mudanças climáticas e da transição energética, o principal elemento viabilizador do atingimento das metas de descarbonização da atmosfera: “quanto custará e quem pagará a conta da Transição Energética?”, dúvida razoável que norteou os encontros no IBGC Dialoga Transição Energética em 2024.
Pelo ângulo da evolução tecnológica (por engajamento empresarial e não por marketing político/institucional) não faltam opções, mesmo que as perspectivas de sustentabilidade econômico-financeira e seus reais impactos para a descarbonização não estejam comprovadas, e até mesmo se, superadas as duas condicionantes, irão ou não atingir resultados a tempo de mitigar os efeitos das mudanças climáticas. E não faltam exemplos. Basta acompanhar as “narrativas”, polarizadas entre si pelos campos “ativista” e “negacionista”, sobre o presente e futuro dos “veículos elétricos” ou a “captura de carbono na atmosfera”, dentre muitos outros.
Antes da apuração final da eleição americana os indícios de que o impasse na COP-29 (com reflexos na agenda da COP-30) e no G-20 eram mais do que evidentes, sobretudo de que o “Longo Adeus” da “petrodependência” global será árduo. Mas os indícios se tornaram sinais fortes após os anúncios da composição do “secretariado” de Estado americano que tomará posse em 20 de janeiro de 2025, apenas como exemplo.
Mudanças Climáticas e Transição Energética só encontrão solução viável em um mundo em que a governança geopolítica encontre um “campo santo sincrético” para enterrar velhas ideias e conceitos abrindo canais de diálogo multilateral sustentados por acordos sob a regência diplomática – e não por forças bilaterais que ampliem os riscos de que a Armadilha de Tucídides deixe de ser um campo especulativo de acadêmicos para ser um “campo de provas” para os Altos Comandos militares.
A geopolítica do petróleo e do gás constituiu a essência da história (com “H maiúsculo”) do século XX. A “estória” com “e” minúsculo, que será escrita por “narrativas” conflitantes e polarizadas no próximo quarto do Século XXI, agudizarão o mais do que evidente “conflito de interesses” que permeia a ruptura entre duas visões de mundo.
No primeiro quarto do Século XXI, a guerra cultural (na forma de “narrativas” ostensivas e vibrantes) do ativismo social, ambiental e de governança deu sinais de que havia a construção de um “consenso progressista” naquele momento histórico (com “H”), sobre bases científicas de urgência e engajamento estratégico, inclusive empresarial, no campo ambiental. Nos campos Social e de Governança, me reservo o direito de ter dúvidas razoáveis se o “consenso” foi alcançado mesmo entre as correntes do campo “progressista”.
Os indícios das “coincidências” de novembro dão sinais de alerta, ainda por serem mais bem debatidos e aprofundados pela história (com “H”), sobretudo pelo campo “progressista”.
Há um “outro elefante na sala”: a contrarreação de um “conservadorismo social”, confrontando a pauta de “costumes progressista”, e uma confusa noção de laissez-faire como um modelo político e econômico de não-intervenção estatal. Que, por sua vez, não deixa de conter profundas contradições pois é impulsionada por interesses associados no plano geopolítico a regimes fechados, autocráticos e, no limite, imperialistas e/ou populistas com tinturas teocráticas, sustentados por instituições fortemente extrativistas nos termos expressos pela dupla Acemoglu e Robinson (cujo reconhecimento pelo “Nobel de Economia” também aconteceu em novembro).
No que tange à Transição Energética o fosso que divide estas visões de mundo ficou mais do que evidenciado em dois discursos na abertura oficial da COP-29: enquanto o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, afirmou que “recursos naturais sãoum presente de Deus e que países que os têm não podem ser culpados por levar esses recursos para o mercado que precisa deles” (ZAMORA, 2024), o secretário-geral da ONU, António Guterres, elevou o tom ao afirmar que “apostar em combustíveis fósseis é um absurdo”, defendendo que a discussão sobre financiamento climático por parte de países ricos para nações em desenvolvimento envolva o chamado “poluidor-pagador, com cobrança de taxas ou impostos sobre as atividades de exploração de combustíveis fósseis” (ZAMORA, 2024)
Ou seja, o pomo da discórdia chama-se “quanto custará e quem pagará” a Transição Energética em prol da mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
Com certeza, essa dicotomia não foi criada pelo furacão de novembro. O enunciado do conflito de interesses, sobretudo na Transição Energética, era claro. Apenas ganhou tração em novembro.
Gabriel Picavêa Torres, em artigo sobre a concessão do “Nobel” a Acemoglu, Robinson e Johnson (ano), traz um ângulo para reflexão: o papel das “elites” (TORRES, 2024).
A chave talvez esteja no alinhamento do que significa “elite” nas palavras de Gabriel: “O conceito de “elite”, em uma acepção clássica e compatível com a teoria institucional, tem raiz latina compartilhada com “eleitos” ou “escolhidos”. Trata-se, portanto, daqueles que são percebidos em um grupo social como os capazes de influenciar e liderar os demais. Não se trata de um conceito necessariamente conectado a recursos financeiros, prestígio político ou reconhecimento em massa — mas, sim, à capacidade de convencer os pares a empreenderem esforços em comum” (TORRES, 2024).
E o corolário pode ser penoso: “Traçando um paralelo com o clássico de Julien Benda, A Traição dos Intelectuais, um dos males das elites de nossos tempos é o abandono de sua vocação para se engajar em compromissos políticos deletérios, pueris e efêmeros — emprestando sua autoridade para tal. Assim, se o clássico de Benda nos lembra que a ascensão dos totalitarismos à esquerda e à direita no século XX contaram com a traição dos intelectuais, em completa violação de sua vocação, o agora clássico trabalho de Robinson, Acemoglu e Johnson nos ensina que não apenas intelectuais, mas também qualquer membro de uma elite trai seu papel de liderança quando se engaja na construção (ou na manutenção) de instituições extrativistas”. (TORRES, 2024).
O que é a essência da tragédia que vivemos.
Como os Conselho de Administração irão conciliar o atual discurso de engajamento com os princípios e padrões ESG, em face às guerras culturais e políticas no âmbito de cada Estado-Nacional onde detenham operações, é outra incógnita.
Inevitável lembrar: a toda ação decorre uma reação. E o campo progressista não está morto. No momento mostra-se desorientado, mas não é razoável supor que a nova ordem, conservadora e que busca perenizar o status-quo, não venha a ser desafiada.
O grande diferencial é que a polarização não irá contemplar mais “agendas tão ocultas” quanto as que prevaleciam antes do furacão de novembro. E as dissonâncias cognitivas certamente se acirrarão.
Na luta entre o rochedo e o mar estarão os indivíduos, as pessoas físicas, os conselheiros de administração que tomarão decisões e emararão diretrizes de ajustes no modelo de negócio, no retorno dos capitais investidos (como o negócio gera valor, em sentido amplo) e, não menos relevante, sobre o modelo de governança adequado às características do negócio e da cultura organizacional, em face aos riscos de continuidade dos negócios no médio e longo prazo.
A polarização e o fosso prevalecem nas “narrativas” como consequência ou manifestação de um estado enfermo, político, social e econômico. O nós contra eles, nas suas mais variadas, sutis ou brutais, formas. E que acaba por acelerar a inflamação, no sentido clínico aplicado ao corpo social, da “doutrina do ressentimento” e a “preocupação obsessiva com um declínio da comunidade e uma humilhação ou vitimização”, tal como Robert Paxton aborda em entrevista ao New York Times (ZEROFSKY, 2024).
Se há uma conclusão, fugaz, é a de que estamos em rumo ao desconhecido, mesmo que não possamos, conscientemente, alegar desconhecimento das dúvidas existenciais e dos dilemas envolvidos.
Referências Bibliográficas
- TORRES, Gabriel Picavêa. (2024). A traição das Elites, 23 de outubro de 2024. O Estado de S. Paulo, disponível em https://estadodaarte.estadao.com.br/sociedade/a-traicao-das-elites/. Acesso em 07/02/2025.
- ZAMORA, Jordi, (2024). Petróleo é ‘presente de Deus’, diz presidente do Azerbaijão, país-sede da COP-29. AFP/O Estado de S. Paulo, 12 de novembro de 2024, disponível em https://www.estadao.com.br/sustentabilidade/petroleo-e-presente-de-deus-diz-presidente-do-azerbaijao-pais-sede-da-cop-29/. Acesso em 07/02/2025.
- ZEROFSKY, Elizabeth. (2024). Trump é um fascista? Um dos maiores historiadores dos EUA muda de ideia. The New York Times/O Estado de S. Paulo, disponível em https://www.estadao.com.br/internacional/trump-e-um-fascista-um-dos-maiores-historiadores-dos-eua-muda-de-ideia/?_gl=1*lsdz98*_gcl_au*MTk4MDQzMjQ1MC4xNzI2NTE0OTg3*_ga*MTAxMTc4MjM1Ni4xNzMwNDkzMDI5*_ga_H1D7PSZ1DW*MTczMTg3ODQyNC40My4xLjE3MzE4Nzg0NTguMjYuMC4xMTQ0NzAwMjU2. Acesso em 07/02/2025.
foi instrutor da 8ª edição do IBGC Dialoga do tema Transição Energética, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2024.