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A transição energética, fundamental para combater a crise climática, envolve confrontos entre o ativismo climático e o ativismo empresarial, passando por diversos stakeholders (governos, órgãos reguladores, comunidade científica e empresas). Enquanto um lado foca o debate em torno do impacto na sobrevivência da espécie humana, o outro lado busca preservar o status quo estabelecido (incluindo a proteção de grandes investimentos já realizados).
Além da complexidade do tema em si, percebe-se a falta de harmonia e de coordenação no debate atual entre as partes interessadas. Questões como “quanto custa” fazer a transição, “quem vai pagar” e “quem será impactado”, ainda carecem de entendimento.
A complexidade do tema exige análise e compreensão de diversos aspectos relacionados, incluindo:
Conflitos de Interesse: há visões divergentes sobre a urgência e os meios de realizar a transição energética. Os conflitos daí decorrentes representam um dos maiores obstáculos à implementação de políticas eficazes de combate às mudanças climáticas. Enquanto ambientalistas defendem mudanças rápidas para reduzir emissões de carbono e mitigar o aquecimento global, grandes corporações frequentemente resistem a essas transformações, temendo pelo impacto econômico. Esta polarização limita a criação de políticas integradas e coordenadas, resultando em ações desconexas e ineficazes.
Custos da transição: Os custos (financeiros, políticos e sociais) são significativos e a pergunta sobre quem pagará continua sem resposta. É importante notar que os impactos são distintos para os variados grupos econômicos e sociais. Por outro lado, diversos países utilizam incentivos para atrair investidores ou barreiras para proteger seus mercados. Procrastinar na busca de soluções não é viável.
Eventos climáticos extremos e seus impactos: Esses eventos servem como lembrete de que as mudanças climáticas não são uma ameaça distante, mas uma realidade presente que já afeta milhões de pessoas ao redor do mundo, reforçando a necessidade urgente de ações concretas.
Segurança energética: É preciso considerar a natureza intermitente das fontes renováveis, assim como eventuais impactos das mudanças climáticas nos recursos naturais (regime hídrico, comportamento dos ventos, etc.). Descarbonizar é importante, mas a segurança energética passará pela manutenção de fontes fósseis não-renováveis por muitos anos ainda, para que se permita a disponibilidade de fornecimento de energia elétrica ao longo das 24 horas do dia.
Viabilidade de novas tecnologias e infraestrutura: Inovação e tecnologia são fundamentais para a transição energética e demandam recursos. As organizações precisam se adaptar às novas exigências do mercado ou regulatórias. Novas demandas necessitarão de energia, como o Hidrogênio Verde para indústria e transporte, veículos elétricos, etc. A resposta por Inteligência Artificial (IA) a um simples prompt consome até 100 vezes mais energia do que uma pesquisa no Google. E é previsto que a demanda de IA aumente 10x em 3 anos.
Educação e capacitação: A capacitação dos líderes e conselheiros se torna fundamental para fortalecer a governança na transição. A compreensão da complexidade do processo de transição é fundamental para alinhamento e aplicação das práticas globais de sustentabilidade.
A transição energética é um processo complexo e repleto de desafios, devido à polarização de interesses entre grupos que defendem o clima e aqueles que buscam proteger o status econômico. A falta de coordenação e diálogo entre esses grupos cria um ambiente caótico, onde as ações muitas vezes se anulam mutuamente, em vez de colaborarem para soluções integradas.
A governança corporativa é profundamente influenciada por interesses econômicos, e muitas vezes não responde de forma adequada à urgência da crise climática. Decisões estratégicas das empresas frequentemente priorizam o lucro de curto prazo em detrimento de soluções sustentáveis.
Mas existe um caminho possível: uma abordagem prática de encontrar soluções que possam equilibrar as necessidades ambientais e econômicas de maneira eficaz. Somente com cooperação será possível superar os obstáculos e alcançar uma transição energética justa e sustentável.
É extremamente importante que gestores e conselheiros de empresas assumam esse pragmatismo e avaliem a segurança energética e os impactos de eventos climáticos em seus negócios.
Os riscos (legais, regulatórios, políticos, de reputação, perda de receitas etc.) devem ser devidamente mapeados e acompanhados em uma matriz de riscos e as oportunidades (mercados de carbono regulado e voluntário, investimentos em títulos “verdes”, climate techs, etc) devem ser continuamente prospectadas.
Ao invés de focarmos em ganhos imediatos, sejamos capazes de promover uma visão de longo prazo, onde a sobrevivência humana e a sustentabilidade econômica possam coexistir de forma harmoniosa.
Arthur Braz, Carlos Rocha, Cris Bianchi, Josiclei Nascimento, Juracy Monteiro, Odilson Nobrega, Pedro Alvarez e Roberto Ventura
Integraram a 7ª edição do IBGC Dialoga no tema Transição Energética.