Governança em movimento: quatro lições do IBGC Dialoga no segundo semestre de 2025

Ao longo do segundo semestre de 2025, a série IBGC Dialoga Mercado Financeiro percorreu uma trilha que refletiu os principais desafios do sistema financeiro brasileiro, em consonância com o papel do IBGC como espaço qualificado de debate em governança corporativa.

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

Os encontros trataram de temas distintos, mas, quando observados em conjunto, revelaram um fio condutor claro: a governança como elemento organizador da complexidade e legitimador das decisões.

Mais do que debates técnicos, a série de quatro encontros expôs dilemas concretos enfrentados por executivos, conselheiros e gestores das áreas de contabilidade, risco e crédito, evidenciando que a tomada de decisão em instituições financeiras exige integração entre técnica, estratégia e responsabilidade institucional.

1) Implementação em “vida real”: o que a Resolução 4.966 mudou nos primeiros nove meses

No encontro de 21 de agosto de 2025, Pedro Henrique Duarte Oliveira (Banco do Brasil) trouxe ao IBGC Dialoga uma fotografia de “vida real” dos primeiros nove meses de aplicação da Resolução CMN nº 4.966. A mensagem foi direta: a norma representa um marco de convergência e modernização, mas seu impacto prático não se resume a parametrizações contábeis — ele se materializa em decisões, sistemas e governança.

Um dos pontos que mais chamaram atenção foi o efeito financeiro imediato observado no início de 2025, com referência a um aumento médio das provisões no primeiro trimestre e repercussões sobre resultados e spreads. O debate evidenciou que a transição para uma lógica mais prospectiva de perdas exige recalibragem de expectativas, inclusive na comunicação com stakeholders.

Pedro também destacou que a implementação pressionou a chamada “infraestrutura invisível” dos bancos — sistemas, bases históricas e governança de dados. A dificuldade de compatibilizar séries antigas de inadimplência com novos critérios e de revisar metodologias evidenciou assimetrias relevantes entre instituições: enquanto grandes bancos tendem a absorver melhor custos e complexidade, instituições menores enfrentam restrições operacionais mais severas, ampliando a importância de orientações adicionais e padronização interpretativa.

A agenda de governança apareceu como pano de fundo de todos esses pontos, especialmente no desafio de explicar escolhas e resultados em um cenário de aprendizagem contínua. Na leitura consolidada do grupo, a 4.966 inaugura um ciclo que exigirá evolução incremental, diálogo regulatório e amadurecimento dos processos internos.

A 4.966 não terminou com a entrada em vigor: ela começou ali — e a governança é o que sustenta o aprendizado sem perder consistência.

2) Tecnologia, risco e contabilidade: a gestão de riscos por trás da Resolução 4.966

O encontro de 23 de setembro, com Jardel Luís Carpes (Caixa Econômica Federal), Marcelo Sarkis Donelian (Banco Sofisa) e Luiz Lobo (Comitê de Riscos da Caixa), trouxe um olhar pragmático sobre a implementação da Resolução CMN nº 4.966. Embora a norma seja frequentemente associada a modelos de perda esperada e ajustes contábeis, o debate evidenciou que seu maior impacto foi organizacional.

A convergência entre risco, contabilidade, tecnologia e negócio deixou de ser desejável e passou a ser indispensável. Decisões sobre classificação de ativos, critérios de provisão, stop accrual e reconhecimento de receitas exigiram articulação entre áreas que, historicamente, operavam com relativa autonomia. Os avanços ocorreram quando essas decisões passaram a ser discutidas em instâncias colegiadas, com validação formal, documentação adequada e clareza de responsabilidades.

Outro ponto recorrente foi a heterogeneidade entre instituições. Bancos de grande porte enfrentaram desafios de escala e sistemas legados; instituições médias recorreram, quando possível, a metodologias simplificadas. Em ambos os casos, o aprendizado convergiu: cumprir a norma é apenas o primeiro passo; sustentar as escolhas ao longo do tempo é o verdadeiro teste de governança.

3) Crédito, capital e provisões: a 4.966 como mudança de lógica, não apenas de cálculo

No terceiro encontro da trilha, Renato Bonetti (Banco BV) trouxe ao centro do debate um ponto que atravessou toda a sua exposição: a Resolução CMN nº 4.966 não representa apenas uma atualização normativa, mas uma ruptura na forma como o risco de crédito é pensado, acompanhado e comunicado.

Ao substituir o modelo de perdas incorridas por uma abordagem prospectiva de perdas esperadas, alinhada ao IFRS 9, a norma desloca o foco do registro contábil para o monitoramento contínuo do risco. Bonetti destacou que esse movimento exigiu revisão profunda de modelos, parâmetros e sistemas, com impactos diretos sobre capital, apetite a risco e estratégias de concessão e cobrança.

Os efeitos iniciais foram sentidos de forma clara na indústria. Houve aumento relevante das provisões, especialmente nos estágios 2 e 3, pressionando resultados e capital no curto prazo e exigindo maior disciplina na gestão dos ativos ponderados pelo risco.

A experiência do Banco BV foi apresentada como exemplo concreto desse processo de adaptação: cerca de 76% da carteira classificada em E1, 22% em E2 e 2% em E3, com cobertura integral das perdas esperadas. Para Bonetti, essa redistribuição sinaliza uma mudança cultural, na qual o risco deixa de ser tratado como evento pontual e passa a ser acompanhado de forma preditiva e permanente.

Na leitura consolidada do expositor, a 4.966 transcende o aspecto contábil. Trata-se de uma transformação estrutural — técnica, cultural e estratégica — que reposiciona o gerenciamento de crédito como eixo central da sustentabilidade financeira, conectando risco, capital e estratégia de longo prazo.

A 4.966 não antecipa apenas perdas — ela antecipa decisões e obriga as instituições a explicarem melhor o risco que escolhem assumir.

4) Pessoas e mandatos: público e privado mudam o contexto, não a responsabilidade

O quarto encontro, com Luiz Lessa e Marco Mastroeni, trouxe à tona um aspecto frequentemente subestimado nos debates sobre governança: antes de ser um arranjo formal de regras, conselhos e comitês, a governança é um sistema social, moldado por pessoas, trajetórias e escolhas.

As falas evidenciaram que os mandatos institucionais impõem contextos distintos. No banco público, o desafio é conciliar desenvolvimento regional, políticas públicas e múltiplos stakeholders; no banco privado, a ênfase recai sobre retorno ao acionista, disciplina de mercado e reputação junto a investidores. Ainda assim, ambos convergiram em um ponto central: a responsabilidade decisória não se altera com o tipo de controle acionário.

Luiz Lessa destacou que, em instituições públicas, a governança cumpre papel adicional de proteção institucional, ao qualificar decisões que precisam equilibrar objetivos econômicos e impactos sociais. Marco Mastroeni, por sua vez, enfatizou que, no setor privado, conselhos atuantes e independentes são fundamentais para conter vieses, evitar atalhos e preservar a confiança do mercado.

Os relatos convergiram em um ponto concreto: decisões críticas raramente são aquelas perfeitamente modeladas. Elas surgem quando a informação é incompleta, o tempo é escasso e o custo reputacional é elevado. Nessas situações, o que sustenta a instituição não é a ausência de erro, mas a integridade do processo decisório — debate qualificado, clareza de papéis, registro de fundamentos e accountability.

Ao final do segundo semestre de 2025, a trilha do IBGC Dialoga revelou que Contabilidade, riscos, políticas de crédito, regulação e governança são apenas diferentes faces de um mesmo desafio: transformar complexidade em decisões compreensíveis, defensáveis e legítimas.

A boa governança não elimina dilemas, nem garante decisões fáceis. Ela oferece, contudo, uma linguagem comum para enfrentá-los — e é essa linguagem que sustenta a confiança no sistema financeiro, especialmente em momentos de mudança e pressão.

foi instrutor da 10ª edição do IBGC Dialoga do tema Setor Financeiro, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2025.

Compartilhe
0
    0
    seu carrinho
    seu carrinho está vazioRetornar a lista de conteúdo