Governança Corporativa em Saúde: Reflexões do IBGC Dialoga Saúde no Segundo Semestre de 2024

O setor de saúde no Brasil enfrenta desafios estruturais que exigem um olhar que compreenda toda a cadeia de valor da saúde e que instigue discussões estratégicas para a indústria. Essa é, justamente, a responsabilidade dos conselhos de administração, que encontram no setor um terreno amplo de atuação.

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

A crise da saúde suplementar, o impacto da judicialização, o aumento dos custos assistenciais e a necessidade de alinhar governança e inovação tecnológica são apenas algumas das questões que permeiam o cenário atual.

Neste contexto, o IBGC Dialoga Saúde, realizado no segundo semestre de 2024, reuniu especialistas com experiência em colegiados de governança em saúde para promover reflexões e análises aprofundadas, estimulando nos associados a busca de soluções eficientes em um ambiente altamente complexo e regulado, de forma que os conselheiros assumam um papel cada vez mais relevante na busca por soluções sustentáveis. Um especial cuidado também foi tomado com a curadoria dos encontros, de forma que ocorressem dentro de uma sequência lógica de temas.

Governança e Reputação: O Risco das Narrativas ESG

O primeiro encontro do ciclo, conduzido pela jornalista e escritora Cristiane Correa, que há alguns anos também atua em comitês de assessoramento ao conselho, abordou um dos temas mais sensíveis para os conselhos de administração: a governança ambiental, social e corporativa (ESG) e o risco do greenwashing. Cristiane trouxe reflexões sobre como empresas do setor de saúde muitas vezes constroem narrativas ESG robustas, mas falham na implementação prática dessas diretrizes, o que pode gerar crises reputacionais de mais difícil controle, apresentando casos reais e de conhecimento público.

Os conselheiros foram provocados para se posicionarem como guardiões da transparência e da integridade corporativa, garantindo que as ações das empresas estejam alinhadas com o discurso e que práticas sustentáveis não sejam apenas instrumentos de marketing. Um dos pontos centrais discutidos foi a necessidade de o conselho atuar preventivamente, criando mecanismos para que a governança ESG seja integrada à estratégia da empresa e não se configure como uma mera formalidade burocrática. A criação e o acompanhamento de indicadores objetivos das ações desse tema, por exemplo, impõem-se como recursos valiosos para essas práticas.

A Crise da Saúde Suplementar e o Papel dos Conselhos

O segundo encontro teve como convidado Carlos Infante de Castro, conselheiro de administração com passagens por empresas de grande porte e especialista no setor de saúde suplementar. A discussão centrou-se na sustentabilidade financeira das operadoras de planos de saúde, um dos maiores desafios atuais do setor.

Carlos destacou como a judicialização, a fraude sistêmica e a incorporação de novas tecnologias pressionam os custos das operadoras, comprometendo a sustentabilidade do modelo econômico no longo prazo. A visão estratégica do conselho foi apontada como fundamental para mediar interesses e buscar soluções estruturais que viabilizem o futuro do setor.

Os participantes discutiram alternativas como novos modelos de remuneração baseados em valor (value-based healthcare), parcerias estratégicas entre operadoras e hospitais, e maior alinhamento regulatório para reduzir riscos jurídicos e financeiros. Um dos principais insights do encontro foi que o conselheiro deve assumir um papel mais ativo no diálogo entre os diversos elos da cadeia de saúde, promovendo soluções que beneficiem todos os stakeholders  que se sentam à mesa no complexo sistema de saúde, e não apenas a empresa na qual atua.

Liderança e Cultura Organizacional: O Papel dos Conselhos na Transformação Empresarial

No terceiro encontro, a economista e conselheira Andrea Rolim trouxe à tona um aspecto essencial da governança corporativa: a cultura organizacional e o desenvolvimento de lideranças que se apresentem como colaborativas, adaptáveis e orientadas para resultados, especialmente em momentos de modificações profundas que geralmente são consequência de cenários adversos. Em um setor tão regulado e dinâmico como o da saúde, conselhos de administração desempenham um papel-chave na criação de um ambiente corporativo capaz de se adaptar às mudanças.

A discussão girou em torno da necessidade de abandonar modelos tradicionais de gestão, baseados exclusivamente em hierarquia e comando-controle, e adotar uma abordagem mais voltada para liderança colaborativa e redes distribuídas de tomada de decisão. Destacou-se que conselheiros devem estimular a inovação dentro das empresas, garantindo que a cultura organizacional esteja alinhada com a estratégia de longo prazo.

Além disso, foram apresentados estudos que demonstram a correlação entre cultura organizacional forte e desempenho financeiro superior, reforçando que os conselhos precisam atuar não apenas na supervisão, mas também no fortalecimento da identidade corporativa.

Os grupos de discussão trabalharam com questões práticas, que envolveram o papel dos conselhos nos seguintes aspectos: a garantia de uma cultura organizacional e que seja um fator de vantagem competitiva; o estímulo ao desenvolvimento de lideranças adaptáveis; a promoção de maior diversidade e inclusão dentro das empresas. A conclusão do encontro foi clara: o conselho precisa ser um catalisador de mudanças, garantindo que a cultura organizacional esteja preparada para enfrentar os desafios do futuro.

Panorama da Saúde Suplementar, Inovação, Tecnologia e Inteligência Artificial

O quarto e derradeiro encontro contou com a presença de Luiza Mattos, consultora sênior e líder da prática de saúde de sua empresa no Brasil. A partir de um artigo de opinião publicado em um jornal brasileiro de grande circulação, os grupos se reuniram para discussão do contexto da saúde suplementar e os impactos que mudanças recentes têm trazido para essa indústria.

Entre os temas discutidos, foram incluídas questões como soluções alternativas à verticalização, o papel dos conselhos no incentivo à experimentação e inovação em modelos de negócios e, finalmente, as competências estratégicas essenciais para conselheiros lidarem com os desafios atuais do setor.

Em relação ao último item, é cada vez mais evidente que conselhos sejam compostos por membros com letramento em tecnologia e experiência em transformação digital. Sua apresentação, que explorou ainda um dado relevante acerca da distribuição dos profit-pools ao longo da cadeia de valor da saúde, trouxe uma visão clara sobre como tecnologia e integração de dados em saúde, inteligência artificial e digitalização estão reformulando o setor e criando oportunidades – e desafios – para a governança corporativa.

Luiza destacou que conselhos precisam estar atentos ao impacto da inovação nos modelos de negócios. Adoção de novas tecnologias sem uma estratégia clara pode resultar em desperdício de recursos, desalinhamento organizacional e riscos financeiros. A governança, nesse contexto, deve atuar como um filtro crítico para garantir que as empresas adotem tecnologias que gerem valor real para pacientes e acionistas.

O Impacto do IBGC Dialoga na Formação de Conselheiros

Ao longo dos encontros, o IBGC Dialoga Saúde reafirmou seu papel como um espaço privilegiado de reflexão e desenvolvimento para conselheiros de administração, servindo como plataforma para troca de experiências entre profissionais que enfrentam desafios semelhantes, promovendo uma visão estratégica e sistêmica da governança corporativa no setor de saúde.

Além do aprimoramento do conhecimento técnico e da discussão de temas relevantes, o programa reforçou também a importância da rede de relacionamentos e do networking entre conselheiros, permitindo a formação de conexões que podem se traduzir em iniciativas concretas dentro das empresas.

O IBGC Dialoga Saúde, assim, não apenas fomenta a qualificação dos conselheiros, mas também atua como um multiplicador de boas práticas em governança, ajudando a construir um setor de saúde mais sustentável, inovador e alinhado às necessidades da sociedade brasileira.

foi instrutor da 8ª edição do IBGC Dialoga do tema Saúde, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2024.

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