Entre Riscos e Oportunidades: O Papel da Governança Climática

Artigo do IBGC Dialoga traz provocações e percepções sobre os riscos e as oportunidades das mudanças climáticas na tomada de decisões.

(Descrição da imagem: a imagem mostra três mãos segurando quatro peças de um quebra-cabeça de madeira clara, prestes a se encaixarem. O fundo é um gramado verde e desfocado. As peças do quebra-cabeça, quando unidas, formam um círculo. Cada peça tem um desenho verde:As duas peças de baixo formam a imagem do planeta Terra.A peça superior esquerda mostra pequenas casas, árvores e uma fábrica com uma chaminé.A peça superior direita exibe turbinas eólicas e prédios altos. Duas mãos, uma na parte inferior e outra no canto superior esquerdo, seguram as peças que já estão parcialmente conectadas. Uma terceira mão, no topo, segura a última peça para completar o quebra-cabeça. Fim da descrição).

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

As mudanças climáticas estão cada vez mais desafiando a agenda das organizações, exigindo que a governança corporativa responda com agilidade e inovação aos riscos e oportunidades emergentes.

No segundo semestre de 2024, foi realizada mais uma edição do Dialoga Mudanças Climáticas, organizado pelo Instituto Brasileiro Governança Corporativa (IBGC), que reuniu associados para discutir como integrar as questões relacionada ao clima e a sustentabilidade à tomada de decisão estratégica. Este artigo apresenta uma síntese dessas discussões, destacando as contribuições de Regina Magalhães, Diretora de Negócios da Microsoft, e Daniel Contrucci, Co-fundador e Diretor Executivo da Climate Ventures.

Durante os encontros, foram debatidas algumas disparidades com relação as diferentes visões sobre a complexidade dos riscos climáticos no Brasil, que muitas vezes diferem da percepção global.  A base da discussão foi feita olhando para a diferença apresentada entre os 5 maioresriscos globais e do Brasil de curto prazo (2 anos), retratados no World Economic Forum – The Global Risks Report – 19th Edition (2024).

No cenário global, os eventos extremos relacionados ao clima aparecem na segunda posição (figura 1), enquanto no cenário Brasil, os 5 principais riscos apontados pelos executivos pesquisados não estão diretamente ligados às mudanças climáticas, e sim a questões econômicas (figura 2). Cabe mencionar que em um olhar global de longo prazo (10 anos), o documento do World Economic Forum mostra as questões ambientais nas quatro primeiras posições (figura 3). O documento não apresenta um resultado de longo prazo especificamente para o Brasil.

Figura 1: Top 5 short-term risks (Global)

Figura 2: Top 5 short-term risks (Brazil)  

Figura 3: Top 10 long-term risks (Global)

O debate entre os participantes levantou hipóteses relacionadas a possíveis questões geracionais nas preocupações sobre as diferentes naturezas de riscos e no fato de o Brasil ter atributos ambientais que podem ser trabalhados muito mais pelo aspecto das oportunidades do que dos riscos. Essa disparidade ressalta a importância de alinhar percepções e integrar os riscos e oportunidades climáticas às agendas de governança. Além disso, a urgência em tratar os impactos negativos das mudanças climáticas já é evidente, com prejuízos concretos que reforçam a necessidade de ações imediatas e coordenadas entre os setores público, privado e a sociedade civil.

A educação contínua em sustentabilidade e clima também foi um tema central das discussões. Capacitar conselheiros por meio de letramento específico e experiências práticas, como visitas de campo, foi apontado como essencial para que líderes corporativos compreendam e enfrentem cenários climáticos complexos. A inclusão de questões socioambientais na formação universitária e nas estratégias organizacionais foi destacada como um passo importante para preparar novas gerações de líderes e tomadores de decisão.

Regina Magalhães, que estava também como associada participante, trouxe reflexões valiosas sobre o papel da inteligência artificial (IA) na sustentabilidade e nas questões climáticas, apresentando exemplos práticos de aplicação da tecnologia em áreas como monitoramento de desmatamento, automação industrial e eficiência energética. Segundo ela, a IA pode ampliar significativamente a capacidade dos conselheiros de compreender e antecipar riscos e oportunidades. Regina enfatizou que a IA permite avanços significativos na eficiência operacional, ao mesmo tempo que reduz custos e melhora a capacidade de resposta aos desafios climáticos. No entanto, também destacou a importância de abordar os riscos associados, como questões de segurança cibernética e impactos sociais, que precisam ser cuidadosamente gerenciados para garantir uma implementação responsável.

“A Inteligência Artificial pode amplificar o entendimento estratégico dos conselheiros, permitindo análises mais rápidas e informadas”

Regina Magalhães – Associada do IBGC e executiva da Microsoft

Por outro lado, Daniel Contrucci, que foi convidado para o 4º encontro, trouxe à tona as barreiras e oportunidades relacionadas à inovação climática, destacando o papel transformador de startups e negócios de impacto climático. Daniel apresentou a experiência da Climate Ventures na promoção de modelos de negócios que unem resultados financeiros positivos a soluções de descarbonização e regeneração ecológica.

Ele ressaltou que o Brasil enfrenta um enorme desafio de mobilização de capital, sendo necessário engajar o setor privado para preencher a lacuna de investimentos estimada em trilhões de reais. Segundo ele, essa transformação econômica requer que os conselhos de administração liderem com os incentivos corretos e uma abordagem atualizada, promovendo uma gestão mais voltada para a economia baseada na regeneração e na sustentabilidade.

“Os conselhos precisam liderar com incentivos e ações práticas para promover uma economia regenerativa”

Daniel Contrucci – Climate Ventures

Ao longo das discussões, ficou evidente que integrar a sustentabilidade à governança corporativa não é apenas uma necessidade, mas uma oportunidade estratégica. Para isso, é fundamental educar e engajar conselheiros, explorar tecnologias emergentes como a inteligência artificial e mobilizar recursos em direção a soluções inovadoras. O caminho para uma economia mais sustentável exige coragem, colaboração e liderança comprometida em transformar desafios climáticos em ações concretas e impacto positivo.

foi instrutor da 8ª edição do IBGC Dialoga do tema Mudanças Climáticas, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2024.

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