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O diálogo estruturado entre pessoas que têm poder de decisão, ou que influenciam tomadores de decisão nas organizações, pode ser um forte alavancador de ação nos temas definidos como foco da interação. Quando se cria um ambiente seguro para expor opiniões, oferecer referências consistentes que alimentem o pensamento e contar com especialistas que compartilhem conhecimento, o resultado torna-se prático e gera mudanças individuais e coletivas.
O que se descreve nesta abertura retrata mais uma edição do Dialoga Mudanças Climáticas, iniciativa cuja curadoria e facilitação venho realizando em parceria com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). No primeiro semestre de 2025, ao longo de quatro encontros, um grupo de associados do Instituto reuniu-se para dialogar sobre riscos e oportunidades relacionados às mudanças climáticas, temas que precisam constar da agenda de governança — nos conselhos de administração e consultivos, nos comitês de assessoramento e na interação com a gestão executiva.
A base comum utilizada como pano de fundo dos encontros foram os oito Princípios para uma Governança Climática Efetiva, originalmente publicados pelo Fórum Econômico Mundial (WEF). Eles tratam da responsabilidade climática dos conselhos; do domínio do tema; da estrutura organizacional com capacidade de tomada de decisão; das fontes para análise de riscos e oportunidades materiais relacionados ao clima; da integração do tema na estratégia de negócios; dos incentivos financeiros adequados para execução de curto, médio e longo prazos; da transparência por meio de relatórios de interesse público; e da troca de experiências com os diversos atores do ecossistema que enfrentam desafios comuns.
COP30: contexto e oportunidades
A realização da COP30 no Brasil, em novembro de 2025, naturalmente tornou-se um dos temas dos encontros. Para além das negociações governamentais, riscos e oportunidades também se apresentam para organizações privadas e da sociedade civil. Observou-se, de um lado, certo pessimismo diante do contexto geopolítico, da timidez ou ausência de metas à altura do desafio climático, das dificuldades de coordenação entre setores e do histórico de não materialização de compromissos financeiros. De outro, o diálogo voltado à ação indicou caminhos ancorados no potencial do Brasil para liderar a transição verde, dada a sua matriz energética e os avanços possíveis sobretudo em transporte, indústria e uso da terra.
Destacou-se a necessidade de coerência entre políticas públicas e instrumentos financeiros. Foram criticados subsídios a combustíveis fósseis e debatidas as consequências das enchentes no Rio Grande do Sul como alerta para adaptação climática. Ganhou relevo a importância de maior união entre empresas para enfrentar movimentos contrários e fortalecer agendas climáticas, inclusive ao considerar modelos de investimento que combinem recursos públicos, privados, filantrópicos e de desenvolvimento.
O impacto das regulações climáticas
A via regulatória nem sempre é bem recebida, pois pode representar imposições custosas conforme a maturidade de cada organização. No tema clima, muitos setores postergaram a percepção dos impactos, apesar dos sucessivos alertas sobre a crescente frequência e intensidade de eventos extremos. Antecipar-se à regulação emerge como recomendação para reduzir custos e controlar prazos.
Nas conversas, traçou-se um panorama de regulação internacional (com destaque para União Europeia, China e Estados Unidos) com impactos sobre mercados que com elas se relacionam. O aumento da regulação ambiental vem pressionando a conformidade e gerando litígios transnacionais. No Brasil, movimentos nacionais — reflexos de padrões globais, como os requisitos de divulgação do IFRS S2 — têm exigido transformações nas práticas de reporte. Há uma necessidade crescente de integração entre áreas antes pouco alinhadas (sustentabilidade, riscos e contabilidade), com o conselho induzindo essa integração.
Convivemos com contradições: avanços (por exemplo, na regulação do mercado de carbono) e riscos de retrocessos (como debates sobre licenciamento ambiental), que precisam ser avaliados sob a ótica de riscos e oportunidades. Em geral, a regulação é vista como indutora de boas práticas e exige capacidade de adaptação, ainda mais diante das diferenças regionais de um país de dimensões continentais. O mercado de carbono pode representar alternativa para empresas que não conseguem desenvolver soluções internas e oportunidade para aquelas que compreendem seus riscos e oferecem soluções.
Por fim, o grupo refletiu sobre pressões diferenciadas — de mercado, regulatórias e da sociedade — que tendem a separar quem de fato entrega de quem apenas diz estar fazendo alguma coisa.
Novos negócios viabilizando soluções inovadoras
A inovação climática precisa deixar de ser nicho e tornar-se eixo estratégico para políticas públicas, investimentos e planos de negócios. Vai muito além de novas tecnologias: envolve desde o avanço das energias renováveis e dos créditos de carbono até as soluções baseadas na natureza, a rastreabilidade de cadeias produtivas, tecnologias de monitoramento e a bioeconomia. O foco é colocar soluções no mercado — e, sobretudo, nas mãos das pessoas — com modelos que protegem biomas, geram empregos, promovem justiça climática e fortalecem a competitividade do Brasil.
Para isso, é essencial que os agentes de governança promovam um ambiente favorável à inovação. O grupo apontou que incentivos fiscais e fundos com juros baixos aceleram a curva de aprendizagem; que a cultura de inovação depende de processos internos e hubs especializados para ganho de escala; e que a inovação aberta, conectando grandes empresas e startups, direciona talento e capital para desafios climáticos concretos.
Casos recentes que foram trazidos nas discussões, ilustraram esse caminho. A Belterra conecta agricultores a financiamento e mercados para implementar agroflorestas em larga escala, unindo regeneração produtiva e renda. A ReGreen opera restauração de floresta tropical com estrutura financeira que inclui o BNDES e o Bradesco, sinalizando como capital paciente pode alavancar soluções de base natural. A Biomas, fruto da articulação de seis grandes empresas — Itaú, Marfrig, Vale, Rabobank, Santander e Suzano — atua para viabilizar restauração ecológica em escala, mostrando que a colaboração setorial encurta caminhos.
O Brasil tem vocação clara para a natureza e um público que valoriza o tema. O próximo passo é transformar essa vantagem em um pipeline consistente de negócios climáticos: alinhar regulação e incentivos, ativar parcerias entre corporações e startups e priorizar soluções que resolvam problemas reais de cadeias produtivas e territórios. Assim, a inovação climática deixa de ser promessa e torna-se estratégia de desenvolvimento.
Reduzindo os desconfortos e fortalecendo a ação
Para verificar em que medida os diálogos ajudaram a reduzir desconfortos individuais apontados no primeiro encontro, resgatou-se as palavras que mais se destacaram no levantamento inicial: inação, incerteza, indiferença, desinformação e negacionismo. Em um segundo levantamento, já com o grupo avançando em suas discussões, buscou-se identificar o que ressoou em cada participante. Destacaram-se: responsabilidade, governança necessária e urgência na pauta.
Conexões entre participantes foram criadas e podem gerar frutos futuros — projetos conjuntos, parcerias ou troca de experiências. Um novo grupo já foi formado para o segundo semestre de 2025, abrindo mais uma oportunidade para que tomadores de decisão e influenciadores se alinhem a fim de que riscos e oportunidades ligados às mudanças climáticas se tornem parte central das agendas de governança.
foi instrutor da 9ª edição do IBGC Dialoga do tema ‘Mudanças Climáticas’, que aconteceu entre março e junho de 2025.