Debates sobre hot topics do setor financeiro

Fruto da 8ª edição do IBGC Dialoga 2024, artigo traz insights para os conselheiros. No grupo temático do Setor Financeiro, profissionais sêniores com experiência no setor reuniram-se para compartilhar experiências e debater temas chave que estão moldando o setor financeiro. Os dialogantes seguiram as regras da Chatham House.

(Descrição da imagem: a imagem mostra, em primeiro plano, seis pilhas de moedas prateadas de alturas variadas, dispostas sobre uma superfície de madeira coberta por mais moedas espalhadas. No topo de cada pilha, há um pequeno cubo de madeira clara. Cada cubo tem o símbolo de porcentagem (%) gravado em sua face frontal. As pilhas de moedas estão organizadas em alturas diferentes, formando um padrão irregular, semelhante a um gráfico de barras. Ao fundo, uma pessoa desfocada, vestindo uma camisa verde-escura, está sentada à mesa com as mãos sobre ela. Uma das mãos segura o que parece ser uma nota de dinheiro enrolada, com um brilho na ponta. Fim da descrição).

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

No primeiro encontro, identificando temas estratégicos para a governança de entidades financeiras, os dialogantes e o instrutor definiram os temas discutidos em cada um dos encontros. Na sequência, foi recebido Marcelo Toniolo, Vice-Presidente de Riscos e Compliance da Cielo. Dentre os tópicos debatidos, resiliência cibernética, segurança da informação e (des)continuidade de negócios foram explorados pelos dialogantes.

Na visão de Toniolo, a Resolução CMN 4893/21 teve um papel impotante para que os conselheiros, atuantes no setor financeiro, dessem mais atenção à resiliência cibernética. Contudo, ainda falta conhecimento técnico suficiente nos conselhos e comitês.

A partir de sua provocação que o foco deve ser como enfrentar um ataque, debateu-se (i) fortalecimento dos aspectos culturais, usualmente negligenciados; (ii) programas de treinamento e de conscientização; (iii) uso de inteligência artificial (IA) seja pelos atacantes seja nas respostas aos ataques; (iv) necessidade de combinar competência técnica com ferramentas e infraestrutura; e (v) plano formal de recuperação, realizar testes rotineiros e utilizar as lições aprendidas para aperfeiçoamento. Toniolo concluiu alertando para a responsabilidade do conselho de administração (CA), dando o tom do topo e fomentando a cultura desejada.

O tema do segundo encontro foi ESG. Assim como em outras edições do Dialoga, os dialogantes defenderam a capacitação e o letramento dos conselheiros em diversidade e inclusão (DI), para alterar o mindset e romper vieses, particularmente diante dos ainda baixos níveis de DI encontrados no setor financeiro.

Os dialogantes debateram várias medidas para que o conselho de administração seja indutor da pauta de DI, dentre elas: (i) DI deve fazer parte do planejamento estratégico; (ii) tom do topo; (iii) aperfeiçoamento dos critérios de composição do conselho; (iv) estabelecimento de políticas; (v) alocação de orçamento específico; e (vi) utilização de metas relacionadas à participação de diversos grupos.

Foi recebido Marcelo Pasquini, Diretor de Sustentabilidade do Bradesco. Ele destacou a atuação do Banco Central do Brasil (BC) por meio da norma pioneira sobre a política de responsabilidade socioambiental em 2014, e sua posterior evolução com a inclusão dos riscos sociais, ambientais e climáticos (RSAC) no gerenciamento integrado de riscos. Dentre os diversos insights estão: (i) responsabilidade dos conselheiros em assegurar que os riscos sejam gerenciados adequadamente; (ii) tanto os riscos físicos como os riscos de transição merecem atenção; (iii) RSAC deve estar na agenda de todas áreas, não somente da área de sustentabilidade; e (iv) aumento de requerimentos ESG na avaliação e concessão de crédito.

Por fim, concluiu que os requerimentos regulatórios do setor financeiro são direcionadores dessa agenda, com destaque para a atuação do FSB – Financial Stability Board e do BIS – Bank for International Settlements internacionalmente, e do BC, nacionalmente, influenciando até mesmo outros setores da economia.

Na primeira parte do terceiro encontro, foi recebido Reinaldo Rabelo, atual CEO do Mercado Bitcoin. Ele compartilhou sua experiência como um dos pioneiros neste mercado no Brasil e debateu com os dialogantes sobre inovações no sistema financeiro, fintechs, ativos digitais e tokenização. Reinaldo abordou a evolução do mercado de ativos digitais e aprofundou sobre “tecnologias descentralizadas”, especialmente o blockchain.

Dentre os diversos insights estão: (i) impactos nos modelos de negócio tradicionais trazidos pelas novas tecnologias, por ativos digitais e pela descentralização das finanças; (ii) principais desafios dos incumbentes; (iii) tokenização já é realidade, a próxima onda é user experience (UX), que já está ocorrendo no varejo; (iv) atenção aos diversos riscos, como lavagem de dinheiro (criptolavagem), segurança cibernética, reputação, riscos operacionais e de tecnologia em geral. Concluiu alertando que os  conselheiros devem compreender riscos, oportunidades de negócio e diversos aspectos da regulação (vide audiência pública lançada pelo BC, sobre o marco regulatório de ativos virtuais).

Na segunda parte do terceiro encontro, foi recebido Durval Jacintho, especialista em inteligência artificial. Jacintho explorou a evolução da utilização da inteligência artificial (IA), enfatizando que a IA generativa é apenas uma fração do que representa a IA.

Dentre os diversos insights estão: (i) 80% da eficácia da IA depende de dados; (ii) a implementação da IA deve iniciar dentro da empresa – primeiramente alinhar a cultura interna e realizar testes, para depois disponibilizar aos clientes; (iii) aplicações da IA são diversas, por exemplo automação de processos, suporte em fusões e aquisições, decisões sobre investimentos, análise dos impactos de mudanças climáticas nos negócios, negociação algorítmica e prevenção de fraudes, incluindo as contábeis; (iv) gestão dos riscos advindos do uso da IA, como a utilização da tecnologia para identificar vulnerabilidades em segurança cibernética, deepfake, preconceitos nas análises de perfis e riscos relacionados a dados; e (v) a regulamentação precisa equilibrar o uso responsável com a inovação; e (vi) as empresas precisam aprimorar a sua governança da IA, estabelecendo suas próprias diretrizes.

Na primeira parte do quarto e último encontro, foi recebido Gustavo Araújo, Diretor de Auditoria Interna (AI) da B3. Gustavo compartilhou sua experiência liderando a jornada de evolução da AI, buscando atuação mais ágil e mais alinhada com a utlização de tecnologias. Ele relatou que a preparação para a certificação do Instituto dos Auditores Internos foi um importante impulsionador. Dentre os diversos insights estão: (i) capacitação dos auditores internos em tecnologia, cyber e negócios; (ii) mix de competências adequado, combinando auditores próprios com auditores terceirizados; (iii) investimentos em automação e monitoramento; (iv) desafio em formar e reter bons auditores; e (v) aumento das expectativas dos diferentes stakeholders, incluindo órgãos reguladores.

Na segunda parte do último encontro, foi recebido Donizeti Maia, especialista com mais de quatro décadas de experiência no setor financeiro. As discussões abordaram semelhanças e diferenças entre as várias crises bancárias, do ponto de vista da governança corporativa. Donizeti falou sobre casos como Banco Econômico, a crise subprime, além dos Bancos Panamericano e Cruzeiro do Sul, e sobre casos mais recentes, como Credit Suisse e Silicon Valley Bank.

Ele traçou paralelos entre a atuação dos órgãos reguladores/supervisores e a evolução dessa atuação a partir dessas crises. Ele ressaltou que as principais falhas apresentaram em comum fragilidades em três dimensões: (i) modelo de negócio/estratégia; (ii) governança corporativa; e (iii) sistema de remuneração. Concluindo, os dialogantes enfatizaram a importância de aprimorar a governança corporativa, por meio de (i) independência, qualificação e composição do CA e seus comitês; (ii) governança dos processos de gestão de riscos; e (iii) remuneração como mecanismo de alinhamento de interesses e balanceamento entre curto e longo prazos.

foi instrutor da 8ª edição do IBGC Dialoga no tema Financeiro, realizado entre agosto e novembro de 2024, e é membro do Conselho de Administração do IBGC.

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