Por que a integração dos relatos é inevitável

Se a empresa é uma só, por que manter múltiplos relatos? A integração já se tornou o novo padrão de transparência corporativa.

Fonte da imagem: banco de imagens Adobe Stock

Introdução

A crescente demanda por transparência e responsabilidade corporativa tem impulsionado as empresas a aprimorar sua comunicação com stakeholders. Nesse contexto, dois instrumentos se destacam: o relatório de sustentabilidade, focado nos impactos socioambientais, e o relato integrado, que evidencia como a organização cria valor ao longo do tempo. A discussão sobre a convergência desses documentos reflete uma mudança de paradigma na forma como as empresas se posicionam diante da sociedade e dos reguladores. Como destaca Eccles (IIRC, 2019), essa convergência não representa apenas eficiência documental, mas a construção de uma narrativa estratégica mais coerente e alinhada às expectativas contemporâneas.

Diferenças, Convergências — e Por Que Isso Importa

Embora possuam origens distintas, os dois relatórios compartilham objetivos complementares. Ambos valorizam a materialidade, a governança corporativa e a transparência. Como apontam Chouaibi et al. (2022):

“Stakeholders buscam aspectos de conformidade com padrões sociais e ambientais, em conjunto com custos e benefícios monetários resultantes dessas iniciativas.”

AspectoRelatório de SustentabilidadeRelato Integrado
Foco principalImpactos socioambientaisCriação de valor no curto, médio e longo prazo
Público-alvoSociedade civil, ONGs, órgãos reguladoresInvestidores, analistas, conselhos
Padrões utilizadosGRI, SASB, TCFD, CDPIIRC Framework, ISSB, Value Reporting Foundation
Ênfase na materialidadeAmbiental e socialFinanceira e estratégica
FormatoNarrativo, com indicadores ESGConciso, interconectado e estratégico

Fonte: elaboração autoral

Além disso, formulários regulatórios como o Formulário de Referência da CVM e o Formulário 20-F da SEC já incorporam seções que tangenciam os dois tipos de relato, reforçando a viabilidade de uma abordagem integrada.

Por que integrar os relatos gera valor

A integração entre o relatório de sustentabilidade e o relato integrado pode gerar ganhos expressivos, tanto estratégicos quanto operacionais:

  • Coerência na narrativa corporativa

A empresa passa a contar uma história única e consistente sobre seu desempenho financeiro, social e ambiental.

  • Eficiência na elaboração e revisão

A integração reduz duplicidades entre áreas como RI, sustentabilidade e compliance, otimizando tempo e recursos.

  • Maior clareza para investidores e stakeholders

Um documento único facilita a compreensão de riscos e oportunidades, especialmente em temas como mudanças climáticas, diversidade e governança.

  • Alinhamento com tendências regulatórias globais

Com a ascensão dos padrões ISSB, da CSRD e das exigências da SEC, a convergência torna-se não apenas desejável, mas estratégica.

  • Fortalecimento da reputação e da confiança

Empresas que adotam práticas integradas demonstram maturidade e compromisso com a transparência, o que pode impactar positivamente sua imagem e valor de mercado.

Os riscos da integração, e como evitá‑los

Apesar dos benefícios, a unificação exige atenção a aspectos técnicos e estratégicos:

  • Complexidade metodológica

A integração demanda domínio de múltiplos frameworks (GRI, SASB, IIRC, ISSB) e uma abordagem robusta de materialidade e governança.

  • Risco de superficialidade ou greenwashing

Condensar múltiplas dimensões em um único documento pode levar à omissão de informações relevantes ou à narrativa excessivamente positiva.

  • Necessidade de alinhamento interno

A construção de um relato integrado exige sinergia entre sustentabilidade, finanças, jurídico e comunicação.

  • Desafios de legibilidade

Estudos como o da FIPECAFI (2023) mostram que muitos relatos integrados no Brasil ainda apresentam baixo índice de legibilidade, dificultando o entendimento dos stakeholders.

  • Pressão regulatória e reputacional

A adoção do relato integrado como padrão de prestação de contas ao TCU, como fez o BNDES, eleva o nível de responsabilidade e expectativa sobre as organizações.

A literatura acadêmica reforça que a transparência socioambiental gera impactos financeiros positivos. Estudos indicam que maior conformidade na divulgação de sustentabilidade reduz dificuldades na captação de recursos (Vitolla, Raimo & Rubino, 2019), diminui o custo do capital próprio (Dhaliwal et al., 2011) e fortalece a integração da sustentabilidade à estratégia empresarial (Carvalho & Kassai, 2014).

O Papel dos Reguladores na Aceleração da Convergência

Diante dos benefícios identificados, torna-se oportuno encorajar a atuação proativa de órgãos reguladores como CVM, BACEN e B3. Essas instituições podem orientar e incentivar o mercado para o desenvolvimento de um modelo consolidado de reporte, promovendo maior transparência, comparabilidade e eficiência.

Países como Reino Unido, África do Sul, Japão e Alemanha já avançaram significativamente nesse sentido. A experiência sul-africana tornou o relato integrado obrigatório para empresas listadas na Johannesburg Stock Exchange (JSE), enquanto Japão e Reino Unido incentivam fortemente sua adoção por meio de suas bolsas de valores.

Essas iniciativas podem ser sintetizadas conforme a tabela de benchmarking internacional, que evidencia diferentes abordagens regulatórias e estágios de adoção.

Benchmarking internacional

PaísIniciativa-chave
África do SulRelato integrado obrigatório para empresas listadas (King IV + JSE)
Reino UnidoIncentivo via London Stock Exchange e apoio ao IIRC
JapãoAdoção ampla do framework do IIRC com apoio da Tokyo Stock Exchange
AlemanhaAlinhamento à CSRD e práticas robustas de ESG
Países NórdicosRelatórios integrados com forte foco em impacto social e governança
BrasilResolução CVM para reporte ESG obrigatório a partir de 2026

Fonte: elaboração autoral

Casos Práticos e Referências

  • BNDES

Desde 2012, o banco publica seu Relato Integrado com base no framework do IIRC. Em 2022, afirma:
“Quando a empresa opta por publicar um relatório integrado, dá um importante sinal de que entendeu o principal em termos de gestão e transparência da sustentabilidade: que a empresa é uma só e, portanto, deve ter apenas um documento corporativo.”

  • Natura &Co

Referência global em práticas ESG, consolidou seus relatórios em formato híbrido, alinhado aos padrões GRI e IIRC.

  • Suzano

Publica Relato Integrado com forte ênfase em capital natural, aderente às diretrizes GRI e aos princípios do relato integrado.

  • Itaú Unibanco

Avança na integração de seus relatórios, com destaque para o mapa de criação de valor e gestão integrada de riscos ESG.

Conclusão

A unificação entre o relatório de sustentabilidade e o relato integrado representa mais do que uma simplificação documental: é um reflexo da evolução da governança corporativa e da maturidade institucional. Em um cenário orientado por critérios ESG, transparência e criação de valor, integrar essas narrativas é alinhar propósito, desempenho e responsabilidade.

A convergência entre frameworks internacionais, formulários regulatórios e expectativas dos stakeholders aponta para um futuro em que a comunicação corporativa será cada vez mais estratégica, integrada e confiável.

A integração não é o último destino, mas o caminho que fortalece a confiança e amplia o impacto, posicionando a sustentabilidade como pilar estratégico da geração de valor. Para quem deseja liderar essa transformação, o tempo de agir é agora.


Referências

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Relato Integrado 2022. Rio de Janeiro, 2022.
CARVALHO, F. M.; KASSAI, J. R. Relato integrado e criação de valor: uma análise conceitual. Revista de Educação e Pesquisa em Contabilidade, v. 8, n. 3, p. 1–17, 2014.
CHOUAIBI, J.; CHOUAIBI, S.; ZALAGH, M. Sustainability reporting and firm performance: evidence from emerging markets. Journal of Financial Reporting and Accounting, 2022.
DHALIWAL, D. S. et al. Voluntary nonfinancial disclosure and the cost of equity capital: the initiation of corporate social responsibility reporting. The Accounting Review, v. 86, n. 1, p. 59–100, 2011.
FIPECAFI – Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras. Estudo sobre legibilidade dos relatos integrados no Brasil. São Paulo, 2023.
IIRC – International Integrated Reporting Council. International Integrated Reporting Framework. London, 2019.
ITAÚ UNIBANCO. Relato Integrado. São Paulo, 2022.
NATURA &CO. Relatório Anual e Relato Integrado. São Paulo, 2022.
SUZANO S.A. Relato Integrado. São Paulo, 2022.
VITOLLA, F.; RAIMO, N.; RUBINO, M. Integrating sustainability into corporate reporting: the role of integrated reporting. Corporate Social Responsibility and Environmental Management, 2019.

é membro da Comissão de Finanças, Fiscalização e Controles. Este artigo foi produzido no âmbito do projeto #506, da mesma comissão.

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