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A agenda deste último encontrou sofreu um efeito colateral: ao contrário do lema que foi adotado para as sessões anteriores do Dialoga Transição Energética de 2025 (um enigma dentro de um mistério), o melhor que se pode dizer sobre o que viria a se desdobrar da COP30 surgiu na forma de um jogo semântico pois vivenciaremos um mistério dentro de um enigma.
Sobretudo porque, mais do que nas COP anteriores, o cerne da questão da transição energética, o “transitioning away from fossil fuels”, com os adjetivos que foram sendo adicionados nos últimos anos, “just, orderly, equitable phase-out”, encontraria forte rejeição antes mesmo da COP30 começar.
O princípio da “ordem baseada em regras” (“RBO – Rules-based order”), sustentado por instituições multilaterais de cooperação, estava sendo rapidamente erodido e progressivamente substituído por “negociações comerciais” bilaterais ou trilaterais, um ponto que afeta diretamente a evolução e as perspectivas das negociações climáticas, essencialmente multilaterais, que dependem de uma transição energética de alcance global, não restrita a Estados-Nacionais ou a acordos regionais.
A pergunta seminal “quanto custa e quem pagará” pela transição energética subitamente tornou-se anacrônica. Não porque tenha se tornado irrelevante. Ao contrário. O acirramento dos conflitos geopolíticos é que ocupou o espaço na agenda da diplomacia global e deslocou a dicotomia “quanto custa e quem pagará” para um segundo plano.
O longo adeus do petróleo e demais fontes emissoras de gases de efeito estufa ganhou fôlego extra por ter reocupado seu papel relevante nas relações político-estratégicas globais.
Como pontos positivos da COP30, o financiamento climático alcançou um acordo indicando a intenção de aportes significativos (US$ 1,3 trilhão anualmente) pelos países que se fizeram representar no encontro. E as organizações da sociedade civil conquistaram avanços significativos na inclusão de gênero, povos indígenas e afrodescendentes nos textos finais.
Mas ficou no ar uma dúvida mais do que razoável: de onde serão originados esses recursos, em um mundo em que os orçamentos públicos estão sendo pressionados a equacionar as demandas, não da segurança energética, mas dos orçamentos de defesa afetados por ameaças geopolíticas?
A COP30 deu um passo importante na consolidação da inclusão social, mas falhou em definir metas ambiciosas para a descarbonização, especialmente metas de redução da produção e uso de combustíveis fósseis, deixando um legado de avanços pontuais e um grande desafio para a concretização das ações climáticas na próxima década, foco do “mutirão” progressista e da presidência da COP30 para 2026.
Uma forma de dirigir um olhar positivo para o futuro da transição energética global para a próxima década (2026-2035) é reconhecer que tudo seria mais fácil não fossem as dificuldades. Na matriz energética global a participação das fontes e usos de energias sustentáveis amplia-se, sobretudo energia elétrica gerada por fontes como a solar e a eólica, notadamente na China, apesar dos esforços em contrário do governo norte-americano (e, destaque-se, não somente).
Não obstante, remanesce um problema crônico no âmbito dos Estados-Nacionais.
Devido a efeitos colaterais sobre a “segurança energética” e no balanceamento operativo das redes de energia elétrica pelo despacho das fontes renováveis interrompíveis, perdas financeiras para os operadores de fontes eólicas e solares (e até mesmo à geração solar de pequeno porte, descentralizada) estão se acumulando.
Mesmo que os procedimentos sejam essenciais para manter a estabilidade do sistema elétrico, é mais uma demonstração de que a volatilidade e incoerências das políticas públicas e do papel do Estado como regulador é um risco crítico por ser não totalmente mitigável pelo ambiente empresarial, sendo um ponto de atenção permanente para os Conselhos de Administração.
Até a COP31 muitas emoções virão.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em 28/01/25, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, utilizou uma frase de extrema lucidez e sabedoria: “Todos os países enfrentam alguma forma de contradição no combate à mudança do clima”.
Esta frase acompanhará a jornada até a COP31.
foi instrutor da 10ª edição do IBGC Dialoga no tema Transição Energética, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2025.