Os Desafios e Perspectivas sobre Tecnologia nos Conselhos de Administração 

A revolução tecnológica e a transformação digital têm moldado os negócios em escala global, exigindo mudanças profundas nas dinâmicas corporativas.
(Descrição da imagem: a imagem mostra dois profissionais, um homem branco e de cabelos curtos e escuros e uma mulher, também branca e de cabelos compridos e loiros, estão em pé dentro de um moderno data center, rodeados por servidores iluminados com luzes azuis. O homem segura um notebook e parece explicar algo com gestos enquanto a mulher escuta atentamente, demonstrando interesse. Ambos usam crachás, sugerindo um ambiente corporativo formal e voltado à tecnologia. A cena transmite uma atmosfera de análise técnica, tomada de decisões e colaboração estratégica, reforçando o papel da inovação e da infraestrutura digital no contexto da governança e transformação organizacional. Fim da descrição).

Fonte: banco de imagens Adobe Stock

Esse cenário coloca os conselhos de administração diante de novos desafios, que vão desde a compreensão de inovações tecnológicas até a gestão de riscos associados. Este artigo aborda as principais temáticas discutidas na 8ª Edição do IBGC Dialoga Tecnologia que foram: 

  • Letramento dos profissionais do conselho 
  • Inovação/Transformação Digital 
  • Cibersegurança 

Letramento dos profissionais do conselho 

Houve uma evolução da diversidade nos conselhos (gênero, raça, idade, background), e a presença de profissionais representando o “Digital”, no entanto, ainda é insuficiente o conhecimento em geral dos conselhos para as discussões e tomada de decisão. Muitas vezes, dependem de um conselheiro, ou delegam para o time executivo. Os conselheiros deveriam possuir um nível de conhecimento mínimo em tecnologia. 

Os artigos do MIT: “It Pays to Have a Digitally Savvy Board” e “Companies with a digitally savvy board perform better” destacam que: 

  • Background dos membros do conselho é importante. Poucos possuem o background em tecnologia o que dificulta a priorização e discussão 
  • São necessários que 3 membros do conselho sejam letrados em tecnologia para fazer a diferença 
  • Tecnologia deve estar no centro da estratégia da empresa 

Os resultados da mini pesquisa qualitativa, respondida por conselheiros, elencou as principais barreiras para o maior letramento dos conselheiros no tema tecnologia: 

  • Background dos conselheiros, exemplo de comentários: “é muito difícil para quem não tem base em tecnologia”, “Creio que há um receio do tecnicismo do tema” 
  • Interesse, exemplo de comentários: “Falta de interesse; agenda ainda focada nos temas tradicionais sem espaço para o novo; falta de tempo.” 
  • Resistência, exemplo de comentários: “Idade alta de alguns conselheiros tem aversão, falta de compreensão e entendimento, não querem aprender.” 
  • Programas de Desenvolvimento, exemplo de comentários: “Não há programa de aculturamento digital e tecnológico para conselheiros.”  
  • Muita Informação, exemplo de comentários: “A imensidão de artigos. A sabedoria de seleção é parte da equação”. 

Tudo isso nos confirma a importância do letramento dos profissionais do conselheiro, e que as barreiras devem ser endereçadas de forma sistemática para a melhor tomada de decisão. 

Inovação/Transformação Digital 

Muitas empresas investiram nos últimos anos no Digital com a expectativa de serem mais rápidas e melhores, no entanto os resultados são duvidosos. Investir em tecnologia pela tecnologia em si, não faz sentido, deveria estar atrelado a inovação, a um objetivo do negócio.  

Foi compartilhada uma pesquisa abrangente, conduzida por Rodrigo Nasser, sobre quais são os principais desafios que impedem uma empresa não técnica de viver com sucesso o processo de transformação digital, os principais pontos explorados foram: 

  • Cultura da inovação da empresa 
  • Alocação (falta) de recursos 
  • Estruturas legadas 
  • Falta de conhecimento 
  • Formas de medir e acompanhar o desconhecido 
  • Inovação como característica perene 
  • Comunicação 
  • Mentalidade do controle 

Um ponto importante é o planejamento estratégico das empresas, quando se aplica os modelos de horizontes H1, H2 e H3, é necessário ter recursos para o H2/H3. A Inovação/Transformação Digital geram resultados quando o conselho de administração cria um ambiente de governança propício. As ações debatidas pelo grupo, que deveriam ser adotadas pelos conselhos, para que isso ocorra foram: 

  • Mapear o nível de conhecimento de tecnologia do CA e nivelar o conhecimento 
  • Avaliar o nível de maturidade da empresa 
  • Avaliar o nível de digitalização dos produtos e serviços da empresa 
  • Implantar um framework de acompanhamento das iniciativas tecnológicas em todos os comitês 
  • Um ou mais conselheiros (de preferência independentes) devem liderar o tema de fazer as pontes necessárias com os comitês 
  • CEO e equipe executiva com remuneração atrelada ao framework/portfólio de iniciativas 

Cibersegurança 

Cibersegurança é o tema mais complexo a ser tratado pelos conselhos, principalmente pela sua natureza técnica. Com as aplicações e dados na nuvem, muitas vezes em mais de uma nuvem, são necessárias várias camadas de software de proteção. Esta arquitetura a cada dia fica mais complexa de se gerenciar e foi o que aconteceu no apagão cibernético em julho deste ano entre CrowdStrike e Windows da Microsoft que afetaram várias operações no mundo. Este ponto só reforça a necessidade de melhorar os processos, regras, gerenciamento de acesso e planos de contingência das empresas, dados os riscos de descontinuidade da operação e principalmente de reputação. 

As estimativas com perdas cibernéticas giram em torno de USD 9 trilhões. O tema não é novo, e existe bastante literatura disponível. Atinge empresas de todos os portes, recentemente no Brasil a JBS é um exemplo. O tema não é somente tecnológico, envolve pessoas e processos. As consequências duram muito tempo, um exemplo é o incidente da Target ocorrido em 2013, com vazamento de 40 milhões de cartões de crédito. Existem setores mais maduros como o financeiro e setores como varejo, saúde e educação mais vulneráveis. 

Alguns eventos históricos são importantes para entender a importância do tema, como o crescimento da internet, o colapso do governo da Estônia em 2007 (apesar de ser um dos países mais digitalizado do mundo), surgimento do bitcoin em 2009 e recentemente em 2022 a expansão a IA generativa. 

Recomendação de literatura e referências estão disponíveis no National Cyber Security Center de UK, especificamente para conselheiros o “Toolkit for Boards”. Um ponto de destaque foi o risco da cadeia produtiva, pricipalmente conhecer os fornecedores onde este elo pode ser o mais exposto. Entender também os ativos digitais mais críticos da empresa é parte da jornada de entender as ameças e traçar os planos. 

O conselheiro não tem que ser especialista em cibersegurança, mas deve saber fazer as perguntas certas. O grupo debateu como agregar expertise ao conselho de administração. 

Tanto empresas grandes quanto médias e pequenas estão sujeitas ao risco cibernético. Não é prático ter um conselheiro especialista em cibersegurança, apesar de empresas grandes conseguirem formar comitês para esta discussão. O importante é designar um responsável por agregar a expertise ao conselheiro de administração, através de programas de capacitação, apresentação de especialistas, entre outros. O responsável deve ter conhecimento da cadeia de valor da empresa e suas fragilidades. 

Outro debate polêmico foi o dilema do ransomware: pagar ou não pagar o resgate. É uma decisão difícil, há a crença de que não se deve pagar, para não incentivar, porém enfrentar a situação em que as operações da empresa estão paradas torna a decisão não trivial. Não existe resposta certa, o ideal é não pagar, mas depende da situação. A discussão deve acontecer antes, ponderar os fatores importantes da empresa. Se preparar, pois geralmente nestes casos eles pedem duplo resgate, um para descriptografar os sistemas e outra para liberar as credenciais. Avaliar com cuidado as apólices de seguro, entender por exemplo qual autoridade decide pagar ou não. O valor do resgate não é o maior prejuízo!  

Por fim, o importante é estabelecer a comunicação entre os conselheiros e o time técnico. Cada parte tem suas capacidades e resistências com relação outra, mas o conselheiro deve estabelecer esta ponte e o diálogo. 

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