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Os encontros do Dialoga Cooperativas do IBGC evidenciaram esse cenário: fortalecer conselhos, redefinir papéis, integrar princípios do Cooperativismo e ESG, aprimorar controles e ampliar as boas práticas de governança nas cooperativas torna-se cada vez mais necessário e estratégico.

Neste artigo, exploramos como as cooperativas podem avançar de forma consistente, reconhecendo suas dores, valorizando sua identidade e transformando desafios em vantagens competitivas.

1. Formação e certificação: a base de um sistema de governança robusto

A formação dos conselheiros permanece como uma das maiores vulnerabilidades e, ao mesmo tempo, uma grande oportunidade. Como muitos membros vêm diretamente do quadro social, há lacunas de conhecimento sobre responsabilidades, papéis estratégicos e deveres legais. A 6ª edição do Código das Melhores Práticas do IBGC reforça princípios como integridade, transparência e responsabilização, oferecendo um norte para qualificação permanente.

A publicação “Governança para Cooperativas: fundamentos legais e recomendações práticas”, publicada em 03 de dezembro de 2025, traz diretrizes claras sobre ritos, regimentos, assembleias e atuação dos órgãos, pois ainda existem muitos desafios, como: baixa compreensão das responsabilidades, ou seja, muitos conselheiros ainda confundem o papel estratégico com atuação operacional, e assimetria de informação, quando conselhos dependem excessivamente da diretoria para acesso aos dados e informações.

2. Separação de papéis e a importância da governança dual

A governança dual é uma das práticas mais importantes para o fortalecimento institucional: o Conselho de Administração foca em decisões estratégicas, a Diretoria Executiva entrega resultados, e o Conselho Fiscal fiscaliza com independência. No entanto, em muitas cooperativas ainda ocorre a interferência da diretoria nas atividades do conselho e os conselhos que se tornam excessivamente operacionais por lacunas na diretoria. Para enfrentar esse desafio, algumas soluções práticas se mostram essenciais:

– Atualizar regimentos internos, definindo as funções do Conselho de Administração, da Diretoria Executiva e do Conselho Fiscal, bem como os fluxos de informação e deliberação entre esses órgãos.

– Avaliar periodicamente a performance da Diretoria Executiva, com critérios claros, previamente acordados e alinhados à estratégia da cooperativa, reforçando o papel do conselho como órgão de supervisão e não de execução.

3. Autonomia e independência: sem informação, não há governança

A assimetria informacional é um dos maiores riscos de enfraquecimento da governança. A solução passa pelo fortalecimento da secretaria de governança e da figura do Governance Officer, que é o profissional responsável pela fluidez dos processos, ritos decisórios, registro histórico e integridade da informação.

Quando essa função opera com autonomia, conselhos decidem melhor, riscos são mitigados e o fluxo institucional se fortalece.

4. Gestão de riscos como pilar da governança

A cultura de gestão de riscos ainda é reativa em muitas cooperativas — controles são revisados após crises, fraudes ou perdas. O IBGC aponta que conselhos e diretoria precisam integrar riscos à estratégia, com metodologias claras e monitoramento contínuo.

5. ESG com DNA cooperativista: ligando ESG aos 7 princípios

Cooperativas têm um diferencial natural: seu modelo de gestão já nasce alinhado aos valores ESG. A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) reforça que democracia, solidariedade, equidade e interesse pela comunidade são elementos fundadores da identidade cooperativa.

Ao conectar ESG aos sete princípios cooperativistas, a cooperativa fortalece seu relato e demonstra impacto real:

No Brasil, o Sistema OCB reforça esse alinhamento ao conectar a atuação das cooperativas à Agenda 2030, por meio de projetos que envolvem educação, segurança alimentar, inclusão financeira e ação climática.

6. O modelo cooperativo e seus desafios de governança

Se, por um lado, os princípios cooperativistas impulsionam a sustentabilidade e reforçam a identidade das cooperativas, por outro, eles também trazem desafios estruturais próprios desse modelo organizacional. A representatividade desigual, especialmente em cooperativas de grande porte, nas quais parte dos associados pode se sentir distante dos processos decisórios. Essa percepção de afastamento tende a reduzir o engajamento e a participação nas assembleias. Para enfrentar esse desafio, a adoção de modelos de representação, como delegados regionais ou coordenadores de núcleo, mostra‑se uma alternativa relevante para aproximar os associados das instâncias decisórias e fortalecer o vínculo com a governança.

Outro desafio recorrente é a profissionalização da gestão sem descaracterização do modelo cooperativo. À medida que crescem em porte e complexidade, as cooperativas enfrentam pressões por maior eficiência, controles mais efetivos e boas práticas de gestão, o que pode gerar a perda da identidade cooperativista. A solução está no equilíbrio: revisar periodicamente estatutos, políticas internas e modelos de governança para incorporar boas práticas de gestão, preservando os valores e os princípios que fundamentam o cooperativismo.

Outro aspecto relevante é a dupla condição do associado como dono e usuário da cooperativa, que pode gerar conflitos de interesse e distorções em decisões sobre crédito, tarifas, distribuição de sobras, entre outros. Sem regras claras, essa sobreposição de papéis tende a pressionar conselhos e diretoria, comprometendo decisões orientadas ao interesse coletivo e à sustentabilidade de longo prazo. A adoção de políticas formais de conduta, critérios transparentes para concessão de crédito e mecanismos estruturados de prevenção e tratamento de conflitos de interesse contribui para dar previsibilidade e legitimidade às decisões.

Conclusão: governança como motor da longevidade cooperativa

A boa governança não é apenas desejável, ela é essencial para a perenidade das cooperativas. Em organizações baseadas em confiança, democracia e compromisso social, governança significa: proteger a autonomia dos órgãos decisórios, reduzir riscos e aumentar transparência, fortalecer vínculos com os associados e gerar impacto social e ambiental de forma consistente.

Quando governança e princípios cooperativistas atuam em harmonia, o resultado é um modelo sustentável, resiliente e capaz de enfrentar desafios contemporâneos sem perder sua identidade.

Cooperativas com governança forte lideram o desenvolvimento regional, inspiram confiança e constroem valor para suas comunidades.

REFERÊNCIAS

foi instrutora da 10ª edição do IBGC Dialoga do tema Cooperativas, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2025.

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