
Fonte da imagem: imagem gerada por IA (Gemini)
No entanto, os conselhos de administração não têm evoluído nas discussões ou tratado a tecnologia como parte integrante da estratégia. Comitês de tecnologia deveriam ser tão presentes nas empresas quanto são os comitês financeiro, de auditoria e de recursos humanos. A realidade, porém, na maioria das empresas, é bem diferente.
Por isso, os conselhos de administração enfrentam desafios significativos para se tornarem tecnologicamente e digitalmente competentes. A discussão não deve ser SE a tecnologia deve entrar na pauta, mas quão RÁPIDO as lacunas podem ser endereçadas. Este artigo explora algumas dessas lacunas e como isso impacta a governança e as decisões estratégicas das empresas.
A Competência Tecnológica/Digital dos Conselhos
O estudo do MIT Sloan “It Pays to Have a Digitally Savvy Board”, realizado em 2019, com empresas americanas listadas em bolsa e com faturamento acima de USD 1 bilhão, revelou que apenas 24% delas apresentavam um conselho digitalmente competente, e que essas empresas performavam em média 30% melhor do que a média da indústria em várias métricas. Este estudo foi atualizado em 2024 e revelou um aumento de 24% para 72%. Aparentemente, isso representa um grande progresso. No entanto, ao introduzir critérios relacionados à inteligência artificial, a taxa de competência cai para 26%. Essa pequena evolução destaca a dificuldade em manter-se atualizado com as novas tecnologias e enfatiza a necessidade de um letramento contínuo dos conselhos.
No Brasil, esse cenário não é muito diferente, talvez com lacunas ainda maiores. Os conselhos, em geral, não estão preparados para discutir os temas de tecnologia. Consideram o assunto técnico e complicado, e algumas empresas tratam o risco de crédito de forma semelhante ao risco cibernético. Além disso, são necessários altos investimentos, e a inteligência artificial aumenta significativamente a complexidade das decisões. O letramento dos conselhos em tecnologia é fundamental para o avanço dessa agenda. Houve uma evolução nas empresas no Brasil, com viagens de conselheiros para aquisição de conhecimento no exterior e comitês de tecnologia mais presentes; porém, a tecnologia ainda não está integrada na estratégia do negócio, e a comunicação entre o conselho e a área de tecnologia não ocorre de forma fluida e eficiente.
É importante destacar que não é mandatório que todos os conselheiros entendam profundamente de tecnologia ou que tenham formação específica na área, mas devem ter conhecimento suficiente para fazer as perguntas certas e se apoiar em comitês de assessoramento especializados em tecnologia. O desafio é manter o “lifelong learning” (aprendizado ao longo da vida), ou, em outras palavras, constantemente citadas de Alvin Toffler “Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas sim aqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender”.
Desafios da Inteligência Artificial
Incontestavelmente, a inteligência artificial é a tecnologia mais aplicada e mais temida nos últimos anos, desde o surgimento do ChatGPT. Não há compreensão total do impacto e da severidade dessas mudanças na sociedade; porém alguns desafios que se apresentam aos conselhos de administração são iminentes:
– Justificativa de Investimentos e ROI da IA: Existem diferentes tecnologias de IA que requerem alavancas de valor distintas. A IA generativa contribui para a produtividade das pessoas (na vida pessoal e profissional) e, portanto, libera horas. A IA agêntica aumenta a capacidade e gera velocidade nos processos. O business case deve ser desenvolvido e submetido para aprovação, considerando o ponto de partida, o impacto e a conexão com os objetivos estratégicos da empresa. Outro ponto a ponderar é o fato de não investir; quais seriam as consequências na competitividade e no posicionamento estratégico da empresa. Mesmo assim, isso não é trivial, pois geralmente envolve novos modelos de negócios, e as estimativas dos custos de desenvolvimento das soluções são pouco conhecidas e dominadas.
– Governança, Gestão de Risco e Accountability: A tendência de regulação deve ser sobre as instituições e seus mecanismos de governança para a gestão das aplicações de IA. Um exemplo recente é o setor de saúde, onde foram publicadas diretrizes para a aplicação de IA no Brasil. Provavelmente, cada setor da economia deverá publicar sua própria regulamentação, pois uma lei federal está longe de ser aprovada. Esse fato torna a governança nas empresas primordial, com adequada gestão da matriz de risco e planos de mitigação.
– Re-skilling da Mão de Obra Atual: A IA veio para ficar, mas necessita do ser humano para condução e validação dos resultados. O desafio é como deve ser essa convivência. É necessário evitar o sedentarismo cognitivo, onde as pessoas se esforçam menos e se acomodam com as respostas dos algoritmos, sem aplicar pensamento crítico. O desenvolvimento de carreira, principalmente no nível inicial das empresas, deve ser repensado, já que o trabalho manual operacional deverá ser substituído pela IA. É importante valorizar o que o ser humano faz melhor do que a máquina.
Prioridades para os Conselhos de Administração
Dentro de tantos assuntos que o conselho deve tratar, a tecnologia também deve ser uma pauta relevante e recorrente. Seguem duas iniciativas simples e de alto impacto que podem elevar as discussões sobre tecnologia nas empresas:
– Letramento dos Profissionais do Conselho – Estabelecer um programa de aprendizado contínuo nas novas tecnologias, que pode compreender:
– Visões Externas à Empresa: convidar especialistas e líderes de pensamento do setor de tecnologia para compartilhar insights e experiências em reuniões do conselho, além de demonstrações de novas tecnologias e ferramentas que possam ser relevantes para os negócios
– Educação Contínua: participar de cursos e workshops sobre tecnologias emergentes, bem como de eventos como Web Summit e SXSW, e jornadas técnicas ao Vale do Silício e China
– Avaliação de Competências: realizar avaliações periódicas do letramento em tecnologia dos conselheiros, identificar áreas de melhoria e personalizar programas de desenvolvimento e mentoria
– Colaboração com Universidades e Startups: formar parcerias com instituições acadêmicas e startups para se manter atualizado sobre as últimas inovações e pesquisas
– Comitê de Assessoramento em Tecnologia – Desempenha um papel crucial na governança e na estratégia de tecnologia de uma empresa. Como principais funções e responsabilidades, pode contribuir com:
– Estratégia de Tecnologia: auxilia na formulação e na supervisão da estratégia de tecnologia, alinhando-a com os objetivos de negócios
– Avaliação de Tecnologias Emergentes: analisa e recomenda tecnologias emergentes que podem impactar a empresa, ajudando a identificar oportunidades e riscos
– Gestão de Riscos: avalia os riscos associados à tecnologia, incluindo segurança cibernética, privacidade de dados e conformidade regulatória, e propõe medidas para mitigá-los
– Inovação: promove a inovação tecnológica, incentivando a adoção de novas soluções que possam melhorar a eficiência e a competitividade da empresa
– Relatórios ao Conselho: fornece relatórios regulares ao conselho de administração sobre o estado da tecnologia na empresa, incluindo recomendações para ações e investimentos.
Os conselhos de administração têm um papel crucial na navegação pela transformação digital e na adoção de tecnologias, como a IA. Para garantir que as empresas prosperem neste ambiente em constante mudança, é essencial que os conselhos se tornem digitalmente competentes, promovendo uma cultura de inovação e aprendizado contínuo. O futuro das empresas depende dessa adaptação e do preparo para os desafios que virão.
foi instrutora da 11ª edição do IBGC Dialoga do tema Tecnologia, que ocorreu no período de março a junho de 2026.