(Descrição da imagem: A imagem mostra as mãos de uma mulher estendidas em direção à câmera, com as palmas abertas e voltadas para frente. Escrito em tinta verde nas palmas, lê-se a frase em inglês

Fonte da imagem: Freepik

O Dialoga Mudanças Climáticas, um dos espaços colaborativos do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), seguiu atraindo associados ao longo do segundo semestre de 2025, período em que o tema ganhou grande visibilidade devido a realização da COP 30 em Belém – PA.

A questão climática nos ambientes de governança das empresas segue evoluindo de uma pauta técnica e de compliance futura para um processo de tomada de decisões, muitas vezes desconfortável, no presente, especialmente para quem está em conselhos e comitês de assessoramento.

Foi possível constatar ao longo dos 4 encontros realizados que existe, em muitos casos, uma distância considerável entre o arcabouço disponível e a ação efetiva.

No Brasil, já existem políticas públicas voltadas às questões climáticas, assim como avanços nas regulações de diversos setores da economia, com destaque para o setor financeiro, que disponibiliza instrumentos financeiros inovadores alinhados à mitigação de riscos e ao aproveitamento de oportunidades ambientais. O arcabouço existente foi construído ao longo de anos, com o conhecimento técnico de empresas, da academia, da sociedade civil organizada e de governos.

A pergunta que ressoa é por que ainda falta ação efetiva na tomada de decisões alinhadas aos riscos e às oportunidades climáticas em muitos ambientes da governança das empresas brasileiras?

Algumas hipóteses podem ser levantadas com base na experiência dos participantes do Dialoga, com perfis de liderança​, seja em conselhos, na gestão ou em consultorias, e no acesso a pesquisas com agentes de governança realizadas por organizações como ​o próprio IBCG e a Chapter Zero Alliance.

Uma primeira hipótese é a falta de priorização nas pautas decisórias, em sua grande maioria dominadas por temas de curtíssimo prazo que deveriam ficar a cargo da gestão, dando espaço para questões de risco e oportunidades estratégicas de médio e longo prazo alinhadas com o desenvolvimento mais sustentável da organização.

Uma segunda hipótese é a falta de articulação entre os agentes da governança, o que permite que o tema climático seja inserido de forma material na concorrida agenda do conselho. O encadeamento dos temas entre a gestão, comitês de assessoramento e conselho, são objetos de articulação na maioria das vezes com o envolvimento do Governance Office (GO), que faz a interlocução com as lideranças da gestão, líderes de comitês e o presidente do conselho.

Uma terceira hipótese é a falta do “dono” do tema climático dentro da empresa, que acaba sendo ignorado ou não é tratado de uma forma estratégica pelas lideranças, sendo delegado somente a um departamento técnico com baixa capacidade de priorização e até mesmo de acesso ao ambiente de tomada de decisões.

Por fim, a quarta hipótese levantada é a falta de coragem decisória, influenciada por questões externas, como, por exemplo, o medo de exposição da baixa capacidade de tratamento estratégico dos riscos e oportunidades das mudanças climáticas, agendas políticas e negacionistas, e questões internas, como incentivos voltados somente ao curto prazo e baixo conhecimento sistêmico sobre o equilíbrio entre questões econômicas e socioambientais atreladas aos negócios.

Como exemplo de conteúdo acessado, destaque para os principais resultados da Global Impact Survey 2024, com recorte Brasil da Chapter Zero Alliance, que foi compartilhado:

Diálogos alimentados por conteúdos de especialistas

Pela primeira vez, de uma série de Dialogas realizados, foi realizado uma enquete no início do primeiro encontro para verificar quais seriam os 3 temas de maior interesse, sendo que foram escolhidas as tendências sobre regulação climática em 1º lugar, com 76% dos votos dos participantes, a inovação em negócios e soluções climáticas em 2º lugar, com 71% dos votos, e as oportunidades de investimentos junto ao financiamento climático em 3º lugar, 48% dos votos.

(Descrição da imagem: A imagem é uma captura de tela de um resultado de enquete digital intitulada

Fonte da imagem: o próprio autor

Curiosamente, os temas relacionados à COP 30 e à Inteligência Artificial, dois hot topics de 2025, não foram eleitos como de preferência pela maioria, mas não deixaram de ser tratados ao longo dos debates.

Com os temas escolhidos, com o objetivo de enriquecer o debate e alimentar os participantes com conhecimento especializado, foram convidadas pessoas que se destacam por trabalhar diretamente os desafios das temáticas, sendo elas: Ana Luci Grizi, Fernando Merino, Felipe Vignoli e William Saab.

Foi possível discutir a perspectiva internacional e nacional sobre as tendências de regulação climática, destacando que no Brasil vivemos um contexto de intensa transformação no panorama regulatório climático, tendo pela primeira vez a reunião de competências do Ministério da Fazenda e do Meio Ambiente.

A evolução se materializa por meio do Plano de Transformação Ecológica e do Plano Clima, voltados para o Mercado de Carbono, a Taxonomia Sustentável Brasileira, a BIP (Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica), o Eco Invest Brasil, as Estratégias Nacionais de Adaptação e Mitigação e seus planos setoriais, para comporem o Plano Nacional de Alocação.

Na esfera internacional, destacou-se a União Europeia, mantendo seu compromisso com o clima e a transição energética, de olho no alinhamento com os EUA quanto à preocupação com o crescimento chinês e o domínio de minerais críticos e tecnologias. Os EUA seguem mais voltados para os setores tradicionais (óleo e gás) do que para as energias renováveis, o que deixa a transição energética menos central na agenda do governo, que segue a estratégia de reindustrialização por meio de incentivos tributários e de fundos federais.

Ao longo da discussão sobre a temática da inovação em negócios e soluções climáticas, a bioeconomia foi vista como uma das respostas produtivas às mudanças do clima, integrando restauração florestal, agricultura regenerativa e crédito de biodiversidade, um mercado ainda incipiente, mas em desenvolvimento. A bioeconomia e a inovação climática foram vistas como caminhos estratégicos para mitigar os impactos das mudanças climáticas e gerar novas oportunidades de negócios.

O diálogo sobre oportunidades de investimento junto ao financiamento climático buscou ampliar o entendimento dos participantes sobre o ecossistema financeiro voltado à transição ecológica e às soluções climáticas. Foi compartilhada uma visão abrangente do ecossistema de financiamento climático, destacando a diversidade de instrumentos voltados à mitigação e adaptação, o desafio de articulação entre atores públicos e privados e os avanços recentes das políticas públicas já mencionadas, além do papel da Taxonomia Sustentável Brasileira como indutora do engajamento do setor privado e do direcionamento de fluxos financeiros.

Em complemento, foram discutidas as principais fontes de financiamento público, como, por exemplo os títulos soberanos sustentáveis, ressaltando seus volumes e capacidade de alavancar capital privado; ao mesmo tempo, foram apontados desafios relevantes, como a baixa maturidade e conectividade entre os ecossistemas de inovação, a escassez de projetos estruturados e de modelagens financeiras robustas, e a elevada aversão ao risco e ao custo de capital nos setores público e privado.

A superação da postura reativa dos conselhos frente à agenda climática exige governança sólida, visão de valor — e não de custo — e uma transformação cultural sustentada por educação contínua, transparência e engajamento dos stakeholders

O diálogo entre os participantes evidenciou que muitos conselhos ainda são passivos, reagindo a crises e regulações, muitas vezes de forma tardia, e com poucas empresas adotando uma postura proativa para explorar as oportunidades climáticas. As decisões relacionadas ao meio ambiente e ao clima são muitas vezes vistas como custos, o que dificulta investimentos em inovação, mesmo já existindo estímulos financeiros, como linhas de crédito com juros mais baixos.

Uma boa recomendação foi o reforço da aplicação dos 8 princípios da governança corporativa do IBGC, com destaque para os princípios de integridade, de transparência e de sustentabilidade, que reforçam o zelo pelas questões ambientais junto às econômicas e sociais, nos curto, médio e longo prazos.

Os encontros reforçaram que a evolução das agendas climáticas e de natureza nos conselhos, comitês e na gestão passa necessariamente pela cultura organizacional. Esse processo é gradual e exige educação contínua, informação qualificada e comunicação clara com stakeholders internos e externos. Diante de riscos e oportunidades já conhecidos, a pergunta que permanece para quem atua em posições de governança é simples — e inevitável: como o tema climático está, de fato, orientando as decisões estratégicas que hoje tomamos?

foi instrutor da 10º edição do IBGC Dialoga no tema Governança Climática, que ocorreu no período de agosto a novembro de 2025.

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