TRANSIÇÃO ENERGÉTICA antes da COP30: Um enigma dentro de um mistério

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Os primeiros debates abordaram as especificidades do insumo energia, demonstrando que a volatilidade das políticas públicas e do papel do Estado como regulador é um risco crítico por ser não mitigável pelo ambiente empresarial. Razão pela qual a agenda dos debates voltou-se para o núcleo duro da mitigação das mudanças climáticas: a transição energética e seus rumos.
O “core business” do setor energético, que engloba as atividades de transformação, distribuição e comercialização de energia primária e secundária, é refém de políticas públicas assim como as cadeias produtivas de quaisquer outros segmentos da economia, pelos riscos à segurança energética dos usos finais de energia.
O que traz consequências à viabilidade econômico-financeira de investimentos em eficiência e inovação, pela volatilidade e incoerência com que as políticas públicas ambientais e energéticas são conduzidas pelos Estados-nacionais, inclusive condicionando o campo de ação das organizações multilaterais engajadas na questão ambiental planetária a partir da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio 92.
Quando Jimmy Carter cunhou a expressão transição energética em 1977 o contexto era outro: colocar em pauta a eficiência das fontes de energia vis-à-vis os riscos da dependência das fontes fósseis e o “conundrum” geopolítico após as crises do petróleo nos anos 1970. Ao longo das décadas seguintes a expressão perdeu força nas narrativas e a matriz energética mundial continuou dominada pelas fontes fósseis.
Com o Acordo de Paris de 2015 e as metas globais de descarbonização houve o despertar de ações mitigadoras e consultorias de negócios incorporaram nas suas narrativas os princípios e compromissos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Pacto Global da ONU tracionando lideranças corporativas em direção a adoção de critérios e práticas de sustentabilidade e responsabilidade corporativa.
Na contramão, a indústria de petróleo, gás e carvão não deixou de expressar seu ceticismo quanto à validação científica das mudanças climáticas.
A CERAWeek 2024, palco da indústria de petróleo, deixou claro qual a questão de fundo: “quanto custará e quem irá pagar” pela transição energética. Daniel Yergin, chairman da Conferência, enfatizou que “essa discussão parece perder o contato com a história e a realidade econômica”.
Segmentos mais radicais da causa ambiental progressista, por sua vez, rebateram que a conta “é do capitalismo industrial” e, portanto, caberá aos capitalistas pagar a conta, o que soa pouco factível. Países ricos passaram a defender limites na divisão da conta global dos custos da transição energética em contraposição à linha defendida pelos países pobres que passaram a pleitear compensações financeiras pelos impactos climáticos no crescimento econômico, inclusive os custos da transição energética.
Assim, emerge a real questão de fundo: um irreconciliável conflito de interesses para ser mediado pelas instâncias diplomáticas multilaterais.
Esse contexto tornou-se mais agudo na COP29 pelo tom do debate entre defensores dos recursos fósseis como vitais ao desenvolvimento (“um presente de Deus”) e líderes ativistas ambientais que defendem que a causa raiz da crise ambiental (e energética) deve-se ao uso abusivo dos recursos naturais.
O que restou evidente nos debates conduzidos no âmbito do IBGC Dialoga Transição Energética ao longo de 2024 e 2025 foi que este conflito de interesses só tinha um ponto em comum: “greenwashing” era a única convergência retórica, embora por razões e argumentos diametralmente opostos.
Se havia algo que não poderia ser desconsiderado é que o “adeus” ao petróleo, como definiu a The Economist, seria longo e extremamente conflituoso, sobretudo porque a geopolítica do petróleo que moldou a geopolítica global ao longo do século XX continuará a fazê-lo, como os fatos supervenientes de 2025 comprovam.
O conflito de interesse tinha uma agenda oculta: a dicotomia entre a captura dos ganhos financeiros no curto prazo pela perpetuação da exploração de fontes e usos de “energia suja” contrastando com o retorno de longo prazo de investimentos em “energia limpa” (mesmo considerando o retorno intangível proporcionado pelo capital reputacional em favor das “energias limpas”).
Além disso, havia um “dissenso oculto”: enquanto a palavra de ordem progressista era no sentido de acelerar a extinção das atividades de exploração, produção e uso final das fontes energéticas com selo de “energia suja”, a resistência da indústria de petróleo, gás e carvão (e seus acionistas e financiadores) era a de perguntar, em alto e bom som, quem iria compensar as perdas contáveis e financeiras da desmobilização (impairment) dos ativos em operação. Ou seja, o contexto “oculto” da pergunta desafiadora surgida na CERAWeek 2024: “quanto custará e quem pagará?”
Um autêntico Catch 22.
foi instrutor da 9ª edição do IBGC Dialoga no tema Transição Energética, que ocorreu no período de março a junho de 2025.